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18.05.2017

O preço do amanhã

Por: Felipe Sandrin

Vago pela noite e faço do silêncio minha companhia. Há tantas esquinas em nossas vidas, ruas que conduzem a histórias, lembranças adormecidas que do nada surgem como fantasmas uivantes de um tempo que se esquece de revelar como é: rápido e curto.
Cruzo por umas praças da cidade, as mariposas se debatem junto a cada poste de luz. O frio está chegando, diminuem os insetos, as cores e as pessoas que corajosamente habitam a noite.
Bento Gonçalves já foi mais segura, receptiva e encantadora: ou será que eu era mais inocente quanto aos perigos que lá fora habitam?
Constantemente tive como companheira a bicicleta, circulava pelas vias calmas da cidade e disparava pelo bairro Botafogo acabando na loja do Schenato onde comprava algum item incrível como um protetor de câmbio ou um cantil.
Áureos tempos devem ter sido os dos nossos pais, que ao sair da escola encontravam tempo para se pendurarem ao cipó e competirem numa corrida maluca até o bairro que abrigava uma turma unida de crianças e suas casas em árvores.
Será que outros tempos foram tão melhores ou somos nós esses seres nostálgicos loucos para acreditar que nossa geração soube usufruir melhor de um mundo que mais tarde enlouqueceria?
Com quantas crianças e suas bicicletas cruzo pelas ruas hoje? Nem me lembro da última que vi. Quantas crianças encontro jogando bola pelas ruas? Nenhuma. Pelas ruas noturnas vejo poucos carros, os que encontro furam sinais vermelhos e andam de tal forma a se defenderem que fica impossível qualquer interação. O silêncio é perturbador.
Não deixo meus pensamentos se banharem na crítica, tento não analisar o que a cidade tem se tornado, mas ao mesmo tempo é impossível fechar os olhos para a verdade: somos melhores do que isso.
Essa talvez seja a face mais terrível da modernidade, e à medida que quebramos os vínculos da comunidade deixamos escapar por entre as rachaduras a segurança de pertencermos a algo além de nossas casas e quintais.
Levamos menos tempo para ir de carro até a praia, também precisamos de menos recursos para tomar café da manhã em São Paulo e jantar em Paris. Mas tanta facilidade de locomoção criou algo mais do que redes conectadas, formaram-se assim as telas e teias em formato de grade, as prisões.
Não conhecemos ao certo o vizinho, nem sabemos de quem é o cachorro que late durante a noite. Lembro que ao lado da igreja Cristo Rei acampava um mendigo, ele tinha nome e, mesmo nós, crianças, sabíamos como chamá-lo.
Não tenho pena das crianças de hoje, não há garantias de que elas vivam tão pior quanto outras crianças de outras épocas, mas de fato muito se perdeu nesse curto espaço de vinte anos. Mudanças profundas que repercutem nas personalidades frágeis que hoje assolam pais e filhos.
Nesse hábito de espreitar a cidade no silêncio da noite consigo ver uma Bento Gonçalves mais íntima, mais triste e despreparada para os dias que estão por vir.
Talvez alguns me chamem de pessimista, mas não é o pessimista um especialista das coisas que deveríamos evitar surgir?
Já vi mais vida nas esquinas, mais barulhos em frente a escolas e mais gente feliz caminhando por aí. Não sei bem o que compramos para a cidade nos últimos anos, mas começo a ter certeza de que o preço foi alto demais.

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Felipe Sandrin

Músico, compositor, escritor e palestrante. Autor dos livros “Amor Imortal” (2008) e “Eu vi a rua envelhecer” (2015), uma coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA, para o qual escreve desde 2005. Teve seu primeiro CD, "Lados Separados", lançado em 2011. Em 2016, as músicas de seu álbum solo chamado "Adeus Astronautas" trouxeram a motivação para a publicação de seu terceiro livro, um romance intitulado "Sempre Haverá Junho".

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Edição 622
11.08.2017

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