Serra2/Carnaval17.02.2012 | 11H54

O morro silencia

Recuo da bateria do mais antigo bloco de Bento evidencia mudança de cultura em relação aos bailes

Fotos: Josiane Ribeiro

O morro silencia

Tamborins e pandeiros dormem no sótão. Caixas de papelão e panos tentam protegê-los do pó inevitável. Os instrumentos não sairão para “pular” o Carnaval. Neste ano, a tradicional bateria do bloco carnavalesco União do Morro de Bento Gonçalves descansa. O grupo, que iniciou em 1987, completa 25 anos de história, mas as Bodas de Prata serão comemoradas em silêncio. O momento é para pensar no real significado da festa mais popular do Brasil.

De acordo com o coordenador do bloco, Márcio Sonza, o principal motivo da pausa é a precariedade dos instrumentos – alguns têm cerca de 40 anos e, por isso, não seria possível uma nova apresentação do grupo. “Tentamos fazer o possível para a bateria sair”, garante. A decisão da não participação em 2012 gerou um clima de indignação entre os integrantes da bateria, que já anunciam reformulações. “Não podemos ser coadjuvantes. A concentração do bloco não pode ser mais importante que a bateria. Por isso, a partir de agora, queremos sangue novo e comprometido”, afirma Edson Luis Mezacasa, enfatizando que houve uma maior preocupação com a festa feita pela concentração do que em manter uma tradição de tantas décadas.

Enquanto mexe nos instrumentos guardados, Mezacasa lembra a história do Bloco União do Morro. Ele é um dos integrantes mais antigos do grupo e procura, em meio a tantas caixas, razões para a bateria não se apresentar. “Temos um Carnaval no qual o próprio Carnaval e o samba não são as atrações principais”, lamenta.

Segundo Mezacasa, em 1987 uma turma da avenida Osvaldo Aranha (bairro Cidade Alta)  herdou os instrumentos do “Bloco da Broca”, antigo “A Voz do Morro”. As apresentações aconteciam em toda região, nos clubes ou em carnavais de rua. Os músicos vestiam fantasias diferentes todos os anos e tinham como inspiração o samba do Rio de Janeiro. “Era uma rotina puxada de ensaios, com até três apresentações por noite, mas era excelente”, conta.

Thomas Vidal da Cruz tem a idade da bateria do bloco. Quando tinha 12 anos, assistia aos ensaios do grupo, atraído pelo som do verdadeiro samba. “Sou um dos caçulas. Em 2007 eu vi uma apresentação e perguntei se poderia participar também”, lembra. Para Cruz, a bateria é o diferencial, a essência do bloco. “Eu estou muito triste, porque o que me deixava feliz nessa época eram os ensaios da bateria e apresentações. Fica um vazio”, lamenta. 

A tradição

Para o produtor cultural Ademir Bacca, o Carnaval das marchinhas e do samba não se faz mais. Bacca, que participou do “Bloco da Broca” nos anos 80, lembra que as festas realizadas nos clubes eram o ápice da época em Bento Gonçalves. “Escutávamos Beatles, era o auge da Jovem Guarda. Mas, mesmo usando cabelos compridos, no nosso Carnaval tocava o samba de raiz, a tradição”, conta. Ele defende que os bailes devem ser resgatados e que devam ser tocadas músicas próprias da festa. “O Carnaval morreu. A juventude de hoje fechou os olhos e tapou os ouvidos. É uma pena. A história do Carnaval é muito bonita”, avalia.

Mantendo a tradição

Pensando nisso, os radialistas Giva Ferri e Vladimir Oliveira decidiram promover a festa “O Verdadeiro e Tradicional Carnaval”, com marchinhas e sambas-enredo a noite inteira. De acordo com Ferri, a ideia é resgatar a história do Clube União São Francisco América (Susfa) com músicos de várias bandas das antigas. “Gostaríamos de convidar todos que não viveram aquela época para conhecer a tradição. É uma oportunidade para o pessoal que participava dos bailes se reencontrar aqui”, destaca. A festa é única nesses moldes na cidade e acontece nos dias 18 e 21 de fevereiro, no Clube Susfa, a partir das 23h.


Josiane Ribeiro

 

Siga o SerraNossa!

Twitter: http://www.twitter.com/serranossa

Facebook: Grupo SerraNossa

Comente no Facebook

Voltar
Comentar Compartilhar Imprimir Reportar Erro