A alegria de ser e se sentir incluso, mesmo com inúmeros desafios

O estudante Marlon da Silva Peccin, de 16 anos, tem finalmente se sentido acolhido por professores e colegas no Colégio Landell de Moura, mas falta de monitores e intérpretes de libras continua atrasando aprendizado

Foto: arquivo pessoal / Eduarda Bucco

“É a primeira vez que abrem as portas para ele, que gostam de recebê-lo e de tê-lo como companhia”. A fala da mãe Josiane Padilha da Silva resume a experiência do filho Marlon da Silva Peccin, de 16 anos, no Colégio Estadual Landell de Moura, em Bento Gonçalves. O aluno surdo iniciou no colégio regular de ensino ainda no ano passado, mas somente passou a frequentar presencialmente as aulas neste ano, por conta da pandemia. Desde então, os pais têm convivido com outro Marlon: mais feliz e realizado.

Ao longo de sua vida estudantil, Marlon já passou por outras escolas estaduais de ensino regular e por duas escolas especiais, a municipal Caminhos do Aprender e a estadual Hellen Keller, em Caxias do Sul. Entre as experiências de inclusão, essa tem, de longe, sido avaliada como a mais positiva pelos pais. “Ele foi muito bem recebido no Landell. Isso fazia falta para ele, poder interagir com outras pessoas. Todos deveriam tratar eles [pessoas especiais] dessa forma. Toda cidade deveria ter esse acolhimento”, comenta.

Desde que iniciou o ano letivo, professores e colegas têm ensinado e aprendido com o Marlon. Com a falta de monitores e intérpretes, os estudantes e a equipe da escola têm desenvolvido métodos próprios para garantir o aprendizado. A professora de Geografia e Filosofia Roberta Gugel, que criou uma relação especial com Marlon, conta que, apesar de não ter libras em seu currículo, acabou desenvolvendo uma linguagem própria com o aluno. “Ele consegue fazer leitura labial e eu e ele nos entendemos muito bem. Não faço diferença entre os alunos, mas sempre que posso sento ao lado dele para tirar dúvidas”, comenta.

E não são apenas os professores que têm se dedicado para tornar a experiência inclusiva de Marlon mais produtiva e divertida. Em pouco tempo na escola, Marlon fez diversos amigos, entre eles o colega Kaleb Amianti Bertolini, de 17 anos. O estudante tem auxiliado diariamente na comunicação de Marlon com a turma, chegando a aprender a língua de sinais para conversar com o amigo. “Dou o meu melhor para ajudá-lo nas atividades”, afirma.

E diante do carinho que sente pelo colega e da vontade de ajudar, Kaleb está desenvolvendo um aplicativo que facilite o aprendizado de Marlon. “Minha ideia é criar uma plataforma na qual serão armazenados vídeos com intérpretes e atividades dos conteúdos escolares, totalmente voltada para pessoas com deficiência”, adianta. “Acredito que isso ajudará o Marlon no aprendizado em geral, já que para eles aprender visualizando o conteúdo, e não apenas escrevendo, é uma maneira melhor de reter conhecimento”, complementa Kaleb.

No momento, o estudante segue sozinho na empreitada, mas está à procura de pessoas interessadas em contribuir com o desenvolvimento do projeto e com a captação de recursos para colocá-lo em prática. “Tudo pelo bem da educação da cidade e pela inclusão”.

“Todos os dias, ele nos ensina alguma coisa”

A evolução de Marlon dentro da sala de aula é perceptível. Pós-graduada em Educação Especial, a professora Roberta Gugel afirma que é possível ver um estudante mais motivado e feliz. “Ele é um menino muito esforçado e inteligente. Aprende bem rápido o que é passado. E percebemos que ele se sente bem entre os colegas. Cada palavra, cada gesto a mais para ele é uma vitória para nós, educadores do Landell, e para a turma dele também”, comenta. “Um dia estávamos confeccionando um mapa – por sinal ele desenha muito bem – e no final da minha explicação ele conseguiu falar bem baixinho: ‘Linha do Equador’. Nossa… fiquei emocionada. Senti que meu trabalho estava dando certo e que ele realmente estava aprendendo em minhas aulas”, recorda a professora.

Com sorriso largo, simpatia e muito carinho, é fácil perceber que o aprendizado tem sido mútuo. Mais do que ensinar, os professores e colegas têm aprendido diariamente novas lições de vida com o aluno especial. “Todos os dias, ele nos ensina alguma coisa. Com aquele rostinho meigo, ele consegue nos mostrar que não precisa falar para demonstrar carinho, amor e conhecimento, e que sempre precisamos nos esforçar se desejarmos algo em nossas vidas. Nesse mundo tão cheio de crueldade, de pessoas querendo passar umas por cima das outras, Marlon com seu olhar é nosso aconchego. Sinto-me abençoada e privilegiada de ser professora dele”, declara.

Falta de monitores e intérpretes

Assim como todas as mães e pais de crianças especiais no município, Josiane Padilha da Silva, mãe de Marlon, tem travado uma luta desgastante para garantir a melhor educação ao seu filho – batalha também enfrentada com sua outra filha especial, Maiara da Silva Peccin, de 21 anos. Desde o nascimento de Marlon, ela e o ex-marido Marcos Peccin têm lutado por vagas nas melhores instituições. Desde então, tem enfrentado problema com falta de monitores e intérpretes e com falta de transporte.

Marlon chegou a frequentar a Escola Estadual Especial Hellen Keller, em Caxias do Sul, onde, com o auxílio de profissionais especializados, conseguiu dar grandes avanços em seu aprendizado. Entretanto, devido ao apelo de um grupo de pais para que suas crianças estudassem em Bento, o transporte até a instituição acabou sendo encerrado. Marlon, então, passou a frequentar a escola municipal Caminhos do Aprender até o nono ano (última série da escola), e em 2021 iniciou no Landell de Moura – a qual os pais acreditam ser a instituição estadual mais qualificada da cidade para Marlon, onde os professores têm conseguido atendê-lo com mais atenção, em uma turma com menos alunos.
Entretanto, assim como as demais instituições, a escola não conta com intérprete e, atualmente, nem sequer há monitores para prestar assistência a Marlon. Além disso, a família reside no bairro Universitário, tornando-se oneroso financeiramente para levar o aluno todos os dias até o Landell.

Diante disso, a família solicitou uma audiência junto ao Ministério Público para tentar resolver o impasse. No dia 29/03, estiveram presentes a mãe de Marlon, a promotora Carmem Lucia Garcia, a secretária municipal de Educação Adriane Zorzi e a representante da 16ª Coordenadoria Regional de Educação (16ª CRE), Rosane Machado.

Na ocasião foram levantadas três alternativas para Marlon: tentar conseguir transporte para ele continuar no Landell; transferir o estudante para uma escola estadual próximo de casa – ou tentar uma vaga, novamente, na escola especial de Caxias do Sul.

Entretanto, a secretária de Educação afirma que, para conseguir reaver o transporte a Caxias do Sul, terá que ser cumprida uma série de etapas burocráticas, o que demandará tempo. Dessa forma, o município sugeriu a possibilidade de, caso o Estado conseguisse um monitor para Marlon, articular um transporte até a escola Landell. “Estamos aguardando um retorno da 16ª CRE sobre o assunto”, afirma.

Questionados sobre a melhor opção para Marlon, os pais dizem sentir-se divididos. “O Marlon levanta entusiasmado para ir para a aula. Ele adora os colegas e os professores. Mas ele precisa de um intérprete e a gente precisa do transporte, porque com o valor da gasolina hoje, está saindo muito caro para nós”, lamenta. “Então entre os estudos ou os colegas, eu escolheria os estudos. Ele precisa de um futuro”, comenta a mãe, se referindo à educação especializada oferecida pela escola de Caxias do Sul. “Queria que meu filho tivesse estudo, fosse para uma faculdade. Aí ele poderia até trabalhar em uma loja [por exemplo]. Mas nem cursos a gente consegue para ele, porque não há profissionais. Então a gente não espera muito [do futuro dele]. Como ele vai trabalhar sem saber fazer uma conta? Sem escrever? Só vejo ele trabalhando em produção [de fábrica]. Nunca conseguimos dar grandes passos”, lamenta a mãe.

O SERRANOSSA tentou contato com a 16ª CRE para questionar se já havia se chegado a uma decisão quanto à situação de Marlon, mas até o fechamento desta edição, não conseguiu conversar com a assessora pedagógica responsável por questões envolvendo alunos especiais.

Marlon e os pais Josiane Padilha da Silva e Marcos Peccin. Foto: Eduarda Bucco
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