A experiência de luto dos pais pela perda de filhos

Em minha prática clínica, não raras vezes me deparo com pessoas enlutadas referindo sentirem-se julgadas pelos outros por expressarem seu pesar. Em relação aos pais que perderam filhos, os relatos são de que as pessoas chegam com pena, fazendo caras e bocas, sugerindo tristeza, ou então questionem o tempo de choro ou retraimento desses pais, por não estarem mais vivendo como antes após meses da partida do seu filho. Por isso, algumas considerações acerca deste tema parecem importantes:

Independente da idade desse filho, a dor de perder é gigantesca. Chega a ser desrespeitoso com os pais quando eles escutam que “foi pouco tempo” (no caso de recém-nascidos, bebês ou mesmo no caso de gestantes) e que por isso “a dor não é grande o suficiente e que seria pior depois”, ou que o casal “não pode desanimar porque é jovem e poderá ter outros filhos”, ou então que “tiveram a oportunidade de viver bastante com o filho” (no caso de filhos adultos) e que por isso os pais “precisam se conformar com a perda, agradecendo por terem vivido”. Também é injusto que os pais sejam rotulados pela sociedade em casos específicos como o suicídio, por exemplo, em que muitas pessoas passam a enxergá-los unicamente como o pai ou a mãe do filho que se matou.

O amor independe do tempo, da idade, das circunstâncias. O que a gente precisa é aprender a respeitar o tempo de recuperação das pessoas que sofrem perdas de entes queridos que representavam algo único para elas. Em questão de vínculo, ninguém pode meter a colher, porque apenas quem perde é que tem a dimensão da dor e também do amor construído. Quem não perde, não consegue nem imaginar. A gente não pode querer negociar com uma dor que não é nossa.

Por isso, pais, para vocês que passaram pela experiência de perder um filho, seja ele um bebê, um jovem, um adulto: autorizem-se a sentir sua dor, validem e reconheçam ela. Mostrem para vocês mesmos e para os outros que sentir e sofrer é um direito que vocês têm. E que ninguém deve falar sobre o tempo de sarar as feridas. A experiência do luto é para sempre. Mas aos poucos, um passo de cada vez, a dor da perda vai se transformando numa saudade e em memórias que nunca morrem e que não devem mesmo ser esquecidas. Não entendo que há aceitação, mas aprende-se a conviver com essa nova realidade.

Porque a gente só cura quando fala, quando coloca pra fora, quando expressa. A gente só cura quando tem a possibilidade de organizar as coisas de dentro e também sente que conta com o apoio de fora. Dor vai existir sempre… a diferença não é ter ou não a dor, não é ter mais ou ter menos, mas o que cada um vai buscar ressignificar a partir dela, num tempo particular – no tempo da própria pessoa.

Sociedade: para nós todos que não sabemos o que dizer ou fazer quando conhecemos alguém que perdeu um filho… ou um sobrinho, um primo, um irmão, um companheiro e afins… tem vezes que nem precisa dizer nada. Mas também não precisa fazer caras e bocas para demonstrar pesar. As pessoas enlutadas percebem quem chega até elas com pena. E a mensagem que sem querer fica acaba sendo a de que não acreditamos que o enlutado possa atravessar pela experiência do luto, como se fosse um desprovido de potência. O que importa realmente está num abraço, num aperto de mão, no mostrar que está junto, que está disposto a ajudar se tiver algo que possa ser feito. É tratar bem, e não tratar diferente. É ser delicado, e não ser sem noção. É ter empatia e cuidar da dor do outro como você gostaria que cuidassem de você quando você não estivesse bem.

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