Após 7 meses no Haiti, militares do 6°BCom relatam as vivências, os desafios do dia a dia e as lições da maior missão de suas vidas

Nem a dura e intensa preparação física e psicológica imposta antes da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah) foi suficiente para evitar o choque de realidade que os 20 militares integrantes do 6° Batalhão de Comunicações de Bento Gonçalves (6°Bcom) tiveram ao chegar no país. Ao encerrar o ciclo de sete meses no Haiti, os mesmos militares que conversaram com o SERRANOSSA sobre suas expectativas antes da viagem agora relatam as vivências, os desafios enfrentados no dia a dia e as lições da maior missão de suas vidas. O novo encontro ocorreu na última quarta-feira, dia 20, na sede do 6°BCom.

Militares foram recebidos com uma formatura no 6°Bcom 
Os sargentos Leandro Silva Dutra, 41 anos, Miguel Angelo Carrion, 39, Josimar Fernandes de Fernandes, 28, o capitão Paulo Dumas Albert, 34, e o tenente Eduardo Anesi Weirich, 23, que comandou todo o pelotão de Bento, contam que a rotina começava com o despertar, às 6h, café da manhã, às 7h e, em seguida, o trabalho na área de comunicação era iniciado. “O horário previsto para o término do turno era às 17h, mas nunca parávamos. Às vezes, até de madrugada éramos acionados para garantirmos o contato via internet ou telefone entre as tropas, comandos ou países”, conta Anesi. 

A rotina de trabalho também incluía acompanhamento das tropas em rondas pelos bairros e favelas, além de suporte em ações para conter manifestações ou garantir segurança em eventos oficiais do governo em Porto Príncipe. “Atuávamos tanto dando suporte na comunicação com os rádios quanto na condução de drones, que permitiam saber a dimensão exata do número de manifestantes, o monitoramento de possíveis rebeldes, entre outras informações requisitadas pelos comandos”, comenta Fernandes. 

Voos sobre a capital Porto Príncipe eram comuns para controlar situação no país 

Os militares participaram de momentos tensos, ao acompanharem as eleições do Haiti, que foram marcadas por manifestações, incidentes e violência. O pleito chegou a ser adiado três vezes e, até hoje, o país segue sendo governado interinamente, pois o candidato que venceu nas urnas foi acusado de fraude. “Nós acompanhamos todo esse processo. Inclusive ajudamos a distribuir as urnas em um processo eleitoral. Realmente o momento era muito tenso e trabalhamos para garantir a segurança, especialmente, da população”, comenta Dutra. 

Confinamento 
Fora a dura rotina de trabalho, outra questão apontada pelos militares como um fator de grande dificuldade é a convivência e a sensação de confinamento nos campos onde as tropas moram, comem, trabalham e vivem. “Somos divididos por graduação e também por afinidade, mas mesmo assim, a convivência diária é muito difícil. Especialmente porque não existe um local onde a gente possa ir após o expediente, por exemplo. Não existem restaurantes, bares ou praças. Só saímos do campo armados e equipados. Para ir ao mercado, vamos em um ônibus ao lado de outros militares”, comenta Dumas. 
O período de férias ao qual eles têm direito – 33 dias –, é utilizado para viagens mais longas, como para o Brasil, para matar a saudade dos familiares, ou para conhecer parte da República Republicana e Estados Unidos. 

Tenente Anesi, durante auxílio de comunicações entre comandos, tropas e países

A dor da distância 
O sentimento de saudade é uma constante durante todo o período longe. Perder momentos importantes na vida de amigos e familiares, como Natal e Ano Novo, são também marcantes e, por vezes, doloridos para quem tem a missão de permanecer no Haiti. O sargento Miguel Angelo Carrion, por exemplo, perdeu a chance de assistir ao nascimento de sua filha. “Logo que soube que minha mulher estava dando à luz, pedi uma folga e ‘corri’ para o Brasil. Conheci ela com quatro dias de vida e, depois, retornei para o Haiti. Só vi minha filha novamente quando ela tinha quatro meses”, comenta Carrion, reiterando que o apoio da esposa, do filho, dos sogros e dos demais familiares foi fundamental para o sucesso da missão. Já o sargento Lisandro teve uma dura perda durante a missão: a morte do pai. “Eu sabia que ele estava doente, mas a gente nunca espera a morte”, comenta ele, que não chegou a tempo de se despedir. 

Organização e rigidez típicas do Exército eram seguidas nos campos de atuação

Dever cumprido
Embora os desafios tenham sido muitos, cada dia tenha ficado marcado intensamente na vida de cada militar e a pobreza extrema do povo haitiano tenha chocado e entristecido, eles garantem que aceitar viver essa experiência valeu muito a pena. “É muito gratificante. Sabemos que a missão já dura 12 anos, mas cada um que passa ali contribui para a manutenção da paz, para melhorar a dignidade daquele povo, para ajudar um país. A gente se prepara uma vida toda para um momento assim e concluir com sucesso é a maior das vitórias. Estou orgulhoso de todos e de tudo que vivemos”, enfatiza o comandante do pelotão. “Cabe reiterar que o tenente Anesi, embora tão jovem, soube nos liderar com serenidade, liberdade e com muita responsabilidade. Somos gratos a ele também”, complementou e agradeceu Lisandro. 
No lar doce lar, felizes e satisfeitos com seus resultados, os militares do 6°BCom já estão prontos para a próxima missão! 

Lembranças da terra natal foram exaltadas durante temporada de trabalho no Haiti

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