“As redes sociais mantêm muita gente no modo zumbi”, analisa professora

A interrupção do funcionamento das principais redes sociais da atualidade registrada na segunda-feira, 04/10, mudou a rotina de grande parte da população. Por cerca de sete horas, bilhares de pessoas precisaram repensar a forma de se conectar sem a utilização do WhatsApp, do Facebook e do Instagram. Mesmo com a ajuda de aplicativos importantes como o Twitter e o Telegram, a tarefa foi difícil principalmente para aqueles que dependem das plataformas digitais para trabalhar. Em Bento Gonçalves, por exemplo, uma pizzaria com tele-entrega viu seus pedidos caírem para menos que a metade. Já uma loja de roupas íntimas feminina precisou adiar o lançamento de uma grande promoção que iria ampliar o movimento ainda na segunda. Sem as plataformas, uma agência de publicidade também não conseguiu atender seus clientes e acabou perdendo prazos. Mas até mesmo quem não utiliza as redes para os negócios precisou  redescobrir uma ferramenta cada vez menos usual: o contato direto. 


Foto: Gilles Lambert/Unsplash

Depois do “susto”, os contatos e prazos atrasados foram perdoados, já que todos estiveram, por sete horas, no mesmo barco. Mesmo assim, os momentos de aflição continuaram repercutindo ao longo da semana. O episódio escancarou algo que já se sabe, mas que ainda pouco se reflete: a relevância – positiva ou negativa – das redes sociais no dia a dia. Na visão da professora dos cursos de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul e do Programa de Pós-graduação em Letras e Cultura, Alessandra Rech, a ascensão das redes foi motivada pela visibilidade de questões até então pouco debatidas na sociedade. “A manifestação da multiplicidade de vozes como fenômeno da comunicação em rede se evidenciou há cerca de 15 anos por aqui, o que denota uma evolução rápida”, contextualiza. “Nesse tempo, a mídia tradicional precisou correr atrás não apenas de pautas ligadas à representatividade, mas também de reformulações na composição do quadro funcional, com vistas a refletir a diversidade presente na sociedade”, comenta a professora.

Com essa rápida expansão, as redes digitais passaram a invadir não apenas a rotina pessoal da população, como também a rotina profissional. Reuniões a distância, contatos instantâneos, aulas on-line, propagandas digitais: grande parte das atividades presenciais migrou para o meio virtual ou foi facilitada pelos aplicativos nele disponíveis, “com ganhos à sustentabilidade, se considerarmos a necessidade de reduzir a emissão de carbono no trânsito, que é uma situação urgente, embora ainda pouco considerada”, complementa Alessandra. 

Por outro lado, a revolução virtual colocou muitas das pessoas no que a professora chama de “modo zumbi”. “Zumbi no sentido de apatia, de uma recepção sem crítica”, explica. Esse novo modo, na opinião da professora, abriu e continua abrindo margem para a manipulação de grupos com objetivos específicos. “Aí estão as ‘fake news’ e todo tipo de obscurantismo dividindo as pessoas, fragilizando a nossa saúde mental e física e absorvendo as atenções que poderiam ser usadas para o objetivo maior de aproximar, fazer circular o conhecimento, promover a evolução das pessoas”, cita. Por conta disso, Alessandra reflete sobre o conceito de dependência, que em sua visão não está atrelado às redes em si, mas a essa apatia e alienação conveniente. “Só sairemos de uma suposta ‘dependência’ se houver vontade de desenvolver outros hábitos”, acredita. 


Professora dos cursos de Comunicação da Universidade de Caxias do Sul e do Programa de Pós-graduação em Letras e Cultura, Alessandra Rech. Foto: Antonio Valiente
 

Para exemplificar, a professora cita a atitude tomada por algumas pessoas nas horas de desconexão vividas na segunda. “No meu caso, recebi uma visitante que vinha de outra cidade, e agradeci que ela chegou antes de um possível desencontro por falta de WhatsApp”, revela. Assim, na opinião da professora, a lição que pode ser tirada da situação é a de valorizar as agendas e os contatos off-line. “Podemos dar um passinho atrás, buscando mais consciência nos nossos atos de comunicação. Falando menos, escutando mais, prestando atenção na hora de enviar mensagens”, aconselha. “Estamos em tempos de Mercúrio retrógrado e, embora a astrologia não faça sentido para todos, não vai mal entender essa retrogradação como uma oportunidade de revisão. A segunda-feira atípica confirma essa necessidade”, finaliza. 

E como trabalhar sem as redes que nos conectam?


Foto: Reprodução
 

Apesar da importância de desconectar em momento necessários e valorizar as conexões “reais”, há quem dependa das redes sociais para atender seus clientes e garantir a prestação de seu serviço. Por conta disso, o SERRANOSSA solicitou ajuda da Apura Produção de Conteúdo – especializada em redes sociais e assessoria de imprensa, para deixar dicas práticas aos leitores que “se viram estreitos” com a queda do WhatsApp, do Instagram e do Facebook na segunda:

– Sempre indicamos que os clientes não dependam exclusivamente das redes sociais para vender sua marca/produtos, justamente porque não temos autonomia em casos de pane. A sugestão é um site/ecommerce próprio, que é como chamamos a 'casa própria' da marca. Qualquer problema que ocorra neste tipo de plataforma, temos para quem reclamar ou pedir agilidade no reparo.

– Para bate-papo e usando o espaço do WhatsApp, há opções como Telegram e Signal. Nestes últimos meses, ambos ganharam muito espaço no Brasil. De acordo com o Telegram, o aplicativo já figurava o top 50 de downloads na App Store há um tempo, mas atingiu a liderança nos últimos dias no Brasil.

– Ferramentas mais tradicionais, como e-mail e até o bate-papo do próprio Gmail (como o chat do Gmail, chamado Hangouts) podem ser opções mais práticas e sempre seguras. O Skype ainda é bastante usado por empresas para comunicação corporativa.

– E claro: redes sociais como o Twitter (focado em notícias/opiniões) e o LinkedIn (focado em rede de negócios) são espaços em que também há usuários esperando por conteúdo, e não fazem parte da empresa afetada pela pane, por exemplo (que abrangia WhatsApp, Facebook e Instagram).
 

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