Campanha do DetranRS destaca importância dos motoboys na pandemia

Nos primeiros meses da pandemia, quando restrições severas de circulação foram impostas para conter o novo vírus, poucos foram os profissionais que continuaram trabalhando. Médicos e enfermeiros, cozinheiros, atendentes de farmácias, caixas de supermercado, caminhoneiros e motoboys foram alguns dos heróis que se expuseram diante de uma situação desconhecida para garantir os produtos essenciais à sociedade e a renda de suas famílias. Os motoboys, entretanto, além da exposição ao Coronavírus, também se viram diante do aumento da demanda por tele-entregas e da necessidade de otimização de seu tempo. Como resultado, constatou -se um aumento de 6% no número de mortes de motociclistas no período, em relação a 2019, conforme dados do DetranRS. Foi pensando nisso que o órgão lançou, no dia 08/07, uma campanha de reconhecimento a esses profissionais. 


 

Atuando no ramo há cerca de dois anos, Carlos Augusto de Oliveira comenta que, durante a pandemia, o serviço dos motoboys e motogirls foi um dos mais procurados. Mesmo assim, ele afirma que a sociedade ainda vê a profissão com preconceito. “As pessoas acham que somos um grupo de pessoas loucas. Falta respeito e consideração com a importância e as dificuldades do nosso trabalho”, comenta. 


 

Cassiele da Silva Leon trabalha como educadora durante o dia e como motogirl à noite, a fim de receber uma renda extra para arcar com os valores dos seus estudos. Mas ela afirma que a profissão é um desafio diário. “O trânsito é o nosso maior aliado, mas acaba nos exaustando pelas tantas vezes que somos tomados pelo susto de sermos atingidos pela irresponsabilidade de alguns motoristas que não respeitam os motociclistas”, comenta. Para ela, a única solução para evitar novos acidentes seria uma conscientização geral, inclusive dentro da própria classe. Cassiele ainda acrescenta a importância do respeito por parte de todos. “Eu, como mulher, digo que o desafio é dobrado. Temos que manter a postura e, ao mesmo tempo, escutar piadas e presenciar situações desagradáveis”, lamenta. 

O motoboy Carlos Camargo ressalta que a percepção negativa da sociedade em relação à classe pode ser explicada por alguns dos colegas que não levam a profissão com a seriedade que deveriam. “Mas em todo o serviço sempre terão os profissionais ruins e os bons. Além disso, algumas pessoas criticam os motoboys que fazem manobras arriscadas para reduzir o tempo de entrega, mas reclamam quando seu lanche chega atrasado. Por isso precisamos nos blindar em relação ao que os outros pensam”, reflete. 


 

Camargo trabalhava há cerca de 15 anos no ramo de chapeação e pintura, mas decidiu investir na profissão de motoboy durante a pandemia. “Minha empresa sempre foi sadia. Tinha clientes fidelizados. Mas logo no início da pandemia precisei fechar as portas, por não se tratar de um serviço essencial”, relata. Para manter as contas em dia, ele decidiu comprar uma motocicleta e procurar emprego no ramo. “Peguei o auge da pandemia e o faturamento foi muito bom, me abriu os olhos para esse mercado. Tendo responsabilidade e dedicação, as portas se abrem”, comenta Camargo. 
Hoje, o motoboy revela que vendeu sua empresa para trabalhar integralmente no ramo de tele-entregas. “Se tu gosta de andar de moto, é fácil se apaixonar. Estamos sempre conhecendo pessoas novas e é uma profissão bem remunerada”, afirma. 

Entretanto, Camargo também precisa lidar com a falta de respeito recorrente em relação à classe. “Nem todos voltam para casa. Ainda tem aqueles que  voltam com uma perna quebrada e precisam ficar meses parados. As pessoas ainda têm dificuldade de enxergar a importância desses profissionais. No início da pandemia ninguém sabia se essa doença [a COVID-19] matava ou não, se passava fácil ou não, mas o motoboy estava lá, indo de casa em casa”, recorda. “As pessoas precisam entender que tem gente bacana buscando entregar o melhor serviço, dar o seu melhor para a empresa e para o cliente”, finaliza.

Sobre a campanha

Neste ano, a acidentalidade entre os motociclistas segue crescendo no Rio Grande do Sul. De janeiro a abril, conforme o Detran RS, 138 pessoas morreram, quatro a mais do que no mesmo período de 2020 e 12 a mais do que nos quatro primeiros meses de 2019, antes da pandemia.
O DetranRS entende que o primeiro passo para um trânsito mais humano é o reconhecimento do outro como um igual, como alguém que tem os mesmos direitos de trafegar naquela via com segurança, seja ele pedestre, ciclista, motociclista, passageiro, motorista de carro, ônibus ou caminhão.

Dessa forma, a campanha lançada neste mês de julho busca mostrar a face humana desses profissionais, aquela que não se consegue enxergar por trás do capacete (ou do preconceito), e promover uma convivência mais harmônica, não apenas no trânsito, mas nas relações. O órgão convida os motoristas a redobrarem a atenção em relação ao “ponto cego”, para visualizarem os motociclistas na pista; sinalizarem com antecedência ao realizar manobras no trânsito e, para a sociedade em geral, oferecer um sorriso por baixo da máscara e um “muito obrigado” ao receber as entregas.  “A campanha chama a atenção não só para a segurança no trânsito, mas também clama por respeito e reconhecimento a esses profissionais que, sem dúvida, têm sido fundamentais para que possamos receber nossas encomendas sem exposição e o risco de contaminação”, afirma a diretora institucional do DetranRS, Diza Gonzaga.

Nova associação em Bento


Foto: Divulgação/Gabinete do vereador Duda Pompermayer

Neste ano, com o auxílio do vereador de Bento Duda Pompermayer, foi criada a primeira associação de motoboys e motoristas de aplicativo de Bento Gonçalves, a AMMAP. A iniciativa surgiu da mobilização de um grupo de motoboys, liderado pelo atual presidente da associação, Mateus de Sousa, a fim de trazer maior reconhecimento e profissionalismo à classe, além de benefícios aos motoboys e motogirls. Atualmente, a entidade conta com 16 associados. “A importância da associação é unir uma classe que é tão desamparada e gerar benefícios para a melhoria do dia a dia dos colaboradores”, complementa o presidente. 

A partir de planos mensais – básico e premium – os profissionais associados contam com benefícios como assessoria jurídica, cursos de capacitação e descontos em serviços como consultas odontológicas, cinema, farmácia, postos de gasolina, borracharia, entre outros.  

A sede da associação está localizada na rua Dez de Novembro, 596, sala 302, com atendimento sob agendamento pelo celular (54) 9642-9949.

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