Chorei, muito chorei, mas não lembro bem por quem

O treino inicia às 14h, o treinador cobra a pontualidade. Disciplina é fundamental e atrasos são sacrilégios no mundo dos esportistas. A criança saiu da escola às 11h, mas não chegaria em casa a tempo de almoçar e ir ao treino, o dinheiro não paga almoço e ônibus, ela precisa decidir: ou almoça ou treina. Essa é a quinta vez que isso ocorre nesse mês, mas ainda assim ela não falta nenhum treino.
Não darei o nome de um atleta para este caso porque esse cenário é quase que comum para a criança brasileira que sonha ser uma esportista. A triste realidade só não é mais tocante porque se tornou comum.
Vencer a adversidade: bonito, inspirador e digno de um pensamento confortante. “Se quiser vencer, você precisa superar tudo”. Mas pergunto: quantos atletas incríveis deixamos escapar? Quantos cidadãos de bem deixamos sucumbir ao desespero? Quantos milhões de vidas deixamos de transformar nesse conformismo de pensarmos que um campeão para ser campeão precisa superar tudo?
O esporte é muito mais do que a grande maioria das pessoas pensa. Basta analisarmos a história humana para notarmos que os períodos em que o esporte mais esteve presente foram também os menos trágicos em guerras. O ser humano sempre competiu, está em nossa natureza a violência, a superação e a disputa. O esporte surge como um catalizador do nosso espírito primitivo e inseparável. Atrevo-me a dizer: sem o esporte, os homens já teriam se dizimado.
Lembro-me de assistir às olimpíadas quando criança e separar aqueles competidores em dois grupos: vencedores e perdedores. Era louco para ver brasileiros competindo e, quando perdiam, eu transferia a insatisfação para a ideia de que eram fracassados.  É isso que aprendemos: o segundo é o primeiro dos últimos. E por mais que os pais nos digam que o importante é competir, que vencer não é fundamental, a criança é levada a pensar diariamente diferente disso. 
Na escola competimos o tempo todo, somos incentivados a fazer isso através das notas, da constante lembrança de que o mundo é cruel e só os melhores vão se dar bem. Aprendemos cedo a exterminar a concorrência, a estabelecermos os melhores colegas para se fazer grupos de trabalho e provas. Assim, neste ambiente selvagem, nos doutrinamos a admirar o vencedor, aquele que está no lugar mais alto, o que quebra recordes.
Com o tempo, começamos a entender que não há igualdade no esporte, que os pontos de partida são diferentes e que esses quase sempre determinam os primeiros a chegarem. Mas aí já é tarde, é tarde demais para nos tornarmos atletas ou mesmo termos aquele atleta brasileiro que ficou em 20º lugar como parâmetro do que é ser um herói.
Digam-me: há heroísmo maior do que passar fome o dia inteiro na escolha de usar o dinheiro da comida para a passagem de ônibus? Há heroísmo maior do que abdicar da comida para ir a um lugar onde você irá sofrer, será xingado e lembrado seguidamente de que só será bom se treinar até suas mãos fazerem bolhas e seus pés sangrarem?
Este país está cheio de heróis, sempre esteve, nós é que não somos capazes de reconhecê-los, nós que nos acostumamos a essa visão embaçada que ofusca o reconhecimento das almas douradas que mereceriam toda nossa fé e apoio. 
Nós somos os verdadeiros fracassados, nós, os incapazes de reconhecer a superação, os incapazes de fazer algo além do que se emocionar durante a matéria que mostra pelo que aquele atleta passou. Nós, os donos de lágrimas que duram apenas até começar o intervalo comercial.

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