Com chance de chegar a 50%, quebra na safra da uva 2015-2016 preocupa setor vitivinícola

Os produtores de uva e as vinícolas da Serra Gaúcha estão recebendo, nos últimos dias, a confirmação do que os vinhedos já indicavam desde o inverno: a safra 2016 será reduzida em relação às dos últimos anos. O setor deve se reunir para coletar os dados oficiais na próxima semana, mas especialistas calculam quebra de, pelo menos, 35% a 40%. 

A ausência de condições climáticas adequadas para o desenvolvimento das uvas pode ser apontada como grande responsável pela colheita enxuta. A falta de horas de frio no inverno prejudicou o início da formação dos cachos, além de antecipar a brotação, deixando as parreiras mais suscetíveis às geadas e granizo ocorridos em setembro. As chuvas excessivas, provocadas pelo El Niño, considerado rigoroso no último ano, também são determinantes para o volume: as precipitações abundantes causam abortamento floral e, consequentemente, a redução de frutos.

O presidente da Comissão Interestadual da Uva, Denis Debiasi, acrescenta que a umidade impediu a eficácia dos defensivos agrícolas. “Foi um ano diferente dos outros, muito difícil e cruel para os agricultores. O clima pegou de surpresa em todos os sentidos, não deu tempo para nos prevenirmos”, lamenta. Ele teme que os números sejam ainda mais negativos e que a perda ultrapasse os 50%. 

Enquanto é contabilizada queda na quantidade de frutas processadas, os dias ensolarados estão garantindo a qualidade na colheita. “Quando analisamos a Violeta, cultivar utilizada para a produção de sucos, vimos que sua graduação de açúcar está dentro do padrão esperado”, afirma o enólogo da Emater Thompson Didoné.

Variedades com o mesmo fim, como Condord, Bordô e Isabel, e precoces usadas na elaboração de espumantes, como Chardonay, Pinot Noir e Riesling, devem ter seu destino até a próxima semana. A expectativa é que o sol se mantenha constante para as uvas tardias, cuja maturação segue até março. 

Benefícios

Mesmo dependente do clima no próximo ciclo, a safra seguinte pode ser beneficiada pela abreviação desta. “Se tivermos um inverno com temperaturas baixas, que é o esperado para este ano, a safra 2017 deve ter a quantidade normalizada, já que a videira estará com muitos ramos”, explica Didoné. Para garantir a sanidade dos vinhedos, ele adianta aos agricultores que se dediquem a semear plantas de cobertura do solo no mês de março. 

O momento também é oportunidade para o escoamento dos excedentes da safra do ano passado. “Além disso, com a fruta menos disponível, o mercado deve beneficiar os agricultores nesse sentido”, pondera Debiasi. Outros polos produtores da região sul, como Campanha Gaúcha e Argentina, têm as plantações nas mesmas condições, o que deve deixar a busca pelo fruto mais competitiva. 

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, Inês Fagherazzi, confirma que a procura pela matéria-prima por indústrias de fora do estado nunca foi tão grande. “Assim, há espaço para comercializar tudo, mas os produtores não podem deixar de fornecer para as vinícolas às quais já estão habituados. Compradores de fora não costumam manter fidelidade”, explica. 

Preço mínimo

O preço mínimo da uva para 2016 ficou definido em R$ 0,78 ao quilo da Isabel de 15 graus Babo. Mesmo com o fato do aumento de 11,5% em relação ao ano anterior estar acima da inflação, o valor está abaixo do esperado pelos produtores. “Devido ao clima, precisamos dobrar a quantidade de tratamento e os insumos dobraram de preço”, afirma Debiasi, que calcula que o prejuízo será grande. Além disso, o preço pago na última safra não cobriu as despesas. 

Seguro agrícola

O que devia tranquilizar os produtores quanto às perdas por intempéries está se tornando outra preocupação de meses. O subsídio de 60% do seguro agrícola pelo governo federal está atrasado, ou seja, além de arcar com as despesas da quebra da safra, os agricultores estão pagando a apólice integralmente. De acordo com Inês, o valor em atraso representa um déficit de R$ 35 milhões a 50 milhões para produtores de uva e frutas de caroço da região. “Nossa maior preocupação é com a inadimplência, o que pode causar a perda do benefício para a próxima safra”, diz. 

A orientação da presidente do sindicato aos agricultores é que façam o possível para integralizar o pagamento, enquanto o recurso federal não é enviado. “Temos fé de que o governo pague o restante, vamos fazer de tudo para que esse dinheiro venha”, promete.

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