Construção de grandes empreendimentos no Vale dos Vinhedos gera troca de acusações e mobilização política

Por um lado moradores e conselho distrital defendem preservação da área vitivinícola e alertam sobre os impactos de gigantes empreendimentos no local. Por outro, empresários, políticos e também moradores defendem desenvolvimento da região, geração de empregos e maior movimentação no Vale durante os dias de semana. Discussão foi parar na Câmara de Vereadores onde diversas acusações foram dirigidas ao conselho. Aprovale lançou abaixo-assinado em defesa dos direitos e legitimidade da comunidade, empreendedores e moradores do Vale dos Vinhedos.


Uma polêmica tem movimentado Bento Gonçalves nas últimas semanas: a construção de gigantes empreendimentos em um dos cartões-postais da cidade e – por que não? – do Brasil: o Vale dos Vinhedos. Única do país com Denominação de Origem para a produção de vinhos no Brasil, a região recebe anualmente milhares de turistas e amantes do vinho para viverem experiências em torno da bebida. Além de atrair visitantes, a rota também se tornou aposta de grandes empresas, que veem no local uma possibilidade de negócios e expansão imobiliária.

A chegada de empreendimentos milionários tem gerado apreensão e também expectativa na população. Isso porque, mudanças significativas poderão ocorrer em toda a cidade nos próximos anos e décadas. No entanto, esse debate não tem sido o foco nas discussões dos envolvidos. Após o Conselho Distrital barrar a construção de dois empreendimentos que já tinham sido aprovados pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ipurb) – o Be Wine e Família Salton/Gramado Parks –, diversas acusações, como conflito de interesses e até xenofobia, têm sido feitas por políticos que saíram em defesa dos empreendimentos, bem como de membros do conselho.

ACUSAÇÕES
Nesta semana, a Comissão de Infraestrutura, Desenvolvimento e Bem-Estar Social da Câmara Municipal de Bento Gonçalves encaminhou um pedido ao Ministério Público (MP) e à prefeitura para que tornem sem efeito as decisões do Conselho Distrital do Vale dos Vinhedos do último dia 22 de março, oportunidade em que os membros votaram por barrar a construção dos empreendimentos na localidade. Para os vereadores, houve vício de interesses de participantes na reunião do Conselho. “Identificamos que um dos conselheiros não poderia votar por não ter seguido as normas do regimento do órgão, e é notório o vício de interesses de participantes da reunião que têm empreendimentos na região do Vale”, disse o vereador Anderson Zanella (PP), presidente da Comissão.

A Comissão também pediu para que o alvará de construção do Castelos do Valle, que, ao contrário do Gramado Parks e do Be Wine, foi aprovado pelo conselho, seja suspenso imediatamente. “Entendemos que o empreendimento tem características semelhantes aos que foram barrados pelo conselho e, portanto, não pode ser mantido”, destacou Zanella.

Durante a reunião da comissão, os vereadores também acusaram membros do conselho de xenofobia. Zanella e Rafael Pasqualotto (PP) comentaram sobre um áudio do encontro, no qual uma conselheira diz que a questão do Vale é social. “De onde virá a mão de obra para trabalhar nestes empreendimentos? Que impacto que isso terá na cultura do Vale, quando hoje já temos o pessoal que veio do nordeste atacando na rua para vender o tal do conceito de multipropriedade? Eu posso gerar empregos, mas não 1.500. O que aconteceu com grandes resorts? Gerou um grande anel de miséria que hoje os hóspedes têm medo de entrar. São empreendimentos decadentes”, diz a conselheira. O SERRANOSSA entrou em contato com a acusada que falou que os áudios foram cortados e tirados do contexto e que não se manifestará sobre o fato.

SALTON PARTICIPOUDA REUNIÃO
A Família Salton e a Gramado Parks também se manifestaram publicamente na reunião de terça-feira na Câmara de Vereadores sobre o projeto turístico que ambas buscam desenvolver no Vale dos Vinhedos. No encontro, representantes das duas empresas esclareceram que todo o projeto foi elaborado dentro do conceito e vocação do Vale dos Vinhedos, de enoturismo e com experiências diferenciadas para continuidade na valorização das raízes culturais da região.


Eles reforçaram que o empreendimento ainda não foi lançado e não está sendo comercializado e que o projeto da Família Salton e da Gramado Parks está percorrendo todos os trâmites legais, “seguindo rigorosamente todas as exigências solicitadas pelos órgãos públicos, além de apresentar benefícios que serão estendidos à comunidade, dentro dos parâmetros de ética, transparência, visão de longo prazo e sustentabilidade dos negócios e destinos em que atuam”, disseram.

Na Câmara, representantes da Salton e Gramado Parks esclareceram que todo o projeto do Vale foi elaborado dentro do conceito e vocação da região, de enoturismo e com experiências diferenciadas para continuidade na valorização das raízes culturais da região.

APROVALE REPUDIA ACUSAÇÕES
Em reunião realizada na tarde de quarta-feira, 30/03, a Diretoria Executiva, o Conselho Superior e a Assessoria Jurídica da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale) enviaram nota reiterando a “defesa do desenvolvimento sustentável do Vale dos Vinhedos” e repudiaram as acusações contra membros do conselho.
Sobre o voto negativo da entidade à aprovação dos dois projetos de megaresorts dentro da região demarcada da Denominação de Origem no Vale dos Vinhedos, a Aprovale apontou que os empreendimentos têm “alto índice de pontos negativos nos estudos de impacto apresentados e por este motivo foram recusados tecnicamente pelo Conselho Distrital”.

A entidade explicou que os projetos apresentados não foram apreciados como incorporação imobiliária e sim como hotelaria e que eles excedem em escala (de construção e de operação) a infraestrutura disponível no Vale dos Vinhedos e reduzem a área destinada à atividade vitivinícola dentro da demarcação da Denominação de Origem.

Sobre os áudios, a Aprovale afirma que a íntegra do material “comprova a ausência de qualquer inconformidade no processo de votação dos referidos projetos”. Em relação ao conflito de interesses, a entidade afirma que vários membros do Conselho Distrital do Vale dos Vinhedos são empreendedores de restaurantes, hotéis e similares e que é natural que as principais lideranças e representantes da Aprovale exerçam estas atividades. “O fato de um Conselheiro, de qualquer entidade, estar no mesmo ramo de negócio de um projeto analisado não o desqualifica, muito pelo contrário, aporta voluntariamente o conhecimento técnico que o Conselho necessita para corretamente avaliar projetos”, pontuou.

Em relação ao pedido de suspensão dos alvarás do empreendimento Castelos do Vale, a Aprovale aponta que os estudos de impacto revelaram que o projeto estava em conformidade com o Plano Diretor e dentro da escala de viabilidade para sua implantação no Vale, razão pela qual o voto da Aprovale foi positivo à sua aprovação e “assim se manterá”.

Abaixo-assinado

A Aprovale também lançou um abaixo-assinado “em defesa dos direitos e legitimidade da comunidade, empreendedores e moradores do Vale dos Vinhedos”, destinado ao prefeito Diogo Siqueira. O texto sai em defesa do presidente do Conselho. “Marciano Batistello, morador e empreendedor do Vale dos Vinhedos, nos representa. Rogamos que não seja destituído de seus cargos em nossa Sub-Prefeitura ou nosso Conselho Distrital. A pressão institucional e o assédio moral a que este cidadão, de inegáveis préstimos por anos prestados à comunidade, vem sendo submetido, é avassaladora. Porém é justamente neste momento em que contamos com o apoio sensato do senhor Prefeito para nos amparar moral e legalmente, recusando veementemente seu pedido de demissão”, diz.
A entidade continua: “O Conselho Distrital e o Compahc são nossos canais legais e públicos para livre manifestação sobre as questões do território no qual residimos e trabalhamos para sustentar nossas famílias e gerar progresso sustentável. Antes de ser um destino turístico, esta é a região da nossa cultura vitivinícola, terra de nossos antepassados e de nossas futuras gerações. Rogamos ao Sr. Prefeito Diogo jamais permitir que nossa voz seja silenciada ou nosso voto seja amputado”, finaliza.

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