Contra o preconceito e as mazelas da sociedade

Lisiane Pires foi responsável pela criação da primeira comissão carcerária do RS, proporcionando mais dignidade às famílias dos apenados e mais oportunidades de ressocialização aos egressos

Nesta segunda-feira, 11/10, o município de Bento Gonçalves completa 131 anos de emancipação política e administrativa 
e o SERRANOSSA entrevistou figuras que contribuem diariamente para o avanço cultural e social de Bento e tornam a cidade 
um local de acolhimento e oportunidade para todos. Conheça Lisiane Pires.
Foto: arquivo pessoal

Natural de Santana do Livramento, mas criada na periferia de Porto Alegre, Lisiane Pires cresceu em meio às desigualdades sociais responsáveis pelas principais mazelas da sociedade atual. Mas foi em Bento Gonçalves que ela começou a verdadeiramente trabalhar em prol dos grupos mais vulneráveis. Há oito anos morando no município, a voluntária conta que precisou utilizar o serviço carcerário durante o período em que um familiar ficou encarcerado. “Como familiar, eu me senti perdida. Sem orientações, sem acolhimento e à margem de um grande preconceito. E também percebi a dificuldade que aqueles que saem do regime fechado enfrentam quando retornam à sociedade”, recorda.

A partir de então, Lisiane deu vida à primeira comissão carcerária do Rio Grande do Sul, em 2019, a fim de facilitar o diálogo entre as famílias, os apenados e os egressos e as instituições da sociedade. “Não são apenas números. São pessoas, com trajetórias de vida”, comenta. Em 2020, durante uma manifestação pelos direitos dos apenados em frente ao Palácio Piratini, em Porto Alegre, a ideia de criar uma entidade que abrangesse todo o estado se formou e deu origem à Frente dos Coletivos Carcerários do RS. O grupo ganhou força, apoio e reconhecimento de órgãos como o Tribunal de Justiça do RS, a Defensoria Pública e a Promotoria do Estado, ampliando o diálogo com a Susepe e trazendo resultados importantes à comunidade carcerária. “Os familiares ganharam voz e rosto e sua luta começou a ser respeitada. O processo de visitação foi facilitado. Toda vez que há quebra de direitos em relação aos presos, conseguimos levar a denúncia com rapidez aos setores competentes. Fizemos um trabalho de base e nos tornamos uma ferramenta para o fortalecimento”, analisa Lisiane.

Em sua opinião, a luta do Poder Público e da sociedade deve se voltar contra todo o tipo de preconceito, contra a intolerância, a homofobia, o racismo e “todas as mazelas que contribuem para o aumento da criminalidade”. “Enquanto a sociedade não tratar as próprias mazelas, teremos feridas maiores, e o cárcere é uma ferida que a sociedade tem desconforto em tratar”, comenta. A voluntária reforça que o Brasil não tem em sua constituição pena de morte ou pena perpétua e que todo o apenado um dia retornará à sociedade. “O preso de hoje será o cidadão de amanhã, por isso a importância de se trabalhar a readaptação e a ressocialização. O encarceramento não é bom para ninguém. Precisamos pensar em maneiras de melhorar o processo para que ele cumpra seu papel de ressocialização”, ressalta.

E todo o processo de readaptação à sociedade, na opinião de Lisiane, tem como peça-chave a relação com os familiares. Sem políticas eficazes providas pelo Estado, ela acredita que a família seja a ferramenta mais efetiva para manter o vínculo do preso com a sociedade. “É a família que incentiva em sua reinserção. Então o Estado deve atender essas pessoas com a importância que elas têm”, afirma.

Mais do que uma ativista da comunidade carcerária, Lisiane ainda trabalha com outros grupos como indígenas, imigrantes de etnia negra e demais pessoas em situação de vulnerabilidade social em Bento. “São trabalhos que me fazem ser uma pessoa um pouco melhor, me sentir útil para a sociedade. Tentar diminuir as mazelas faz com que eu cresça, alimenta a alma e me ensina que, a cada dia, somos gotinhas d’águas furando pedra”, reflete. Como mensagem a toda sociedade, Lisiane aconselha: “Condene menos, critique menos e atue mais. Precisamos de mais pessoas engajadas para construirmos uma sociedade melhor”.

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