Depois da curva

Se há uma coisa que aprendi com as minhas conquistas é que depois da curva a estrada segue. Eis uma das poucas certezas que tenho ao consolidar cada novo trabalho: términos de ciclos não impressionam quem vivencia todas as etapas.
Constantemente procuramos a curva, mas, na maioria das vezes, a confundimos com um fantasioso fim e é isso que faz muita gente quebrar a cara. O primeiro carro, o primeiro apartamento, a namorada, casamento e filhos são curvas, não o fim. Essa ideia de que a felicidade repousa naquele exato ponto, no sonho realizado, é uma tremenda armadilha. Aprendi isso logo e evitei inúmeras frustrações.
Domingo, quando eu subir no palco da Casa das Artes para lançar meu novo CD, estarei fechando um ciclo, completando uma jornada de quem sempre buscou criar um vínculo com essa cidade à qual muitas pessoas nem sabem que pertenço. Não sei ao certo por que levou tanto tempo para que eu consolidasse meu trabalho em Bento Gonçalves, talvez por saber que laços frágeis nunca me seguraram, talvez porque em outras épocas eu não estivesse maduro o suficiente para fazer esses laços serem fortes.
Perguntam-me desde o primeiro livro, que lancei em 2008: “e aí, empolgado?”. Até hoje não sei responder, mas sempre me corre a sensação de que aqueles que presenciarem minhas conquistas acabam se divertindo e se empolgando mais do que eu. Pode ser uma forma dramática de ver a vida, mas sentimentos não se controlam e a cada novo livro e CD minha sensação é a mesma: nada está terminado, o ciclo que se fecha é apenas parte do próximo que está por vir.
Recortes de jornais dão forma a uma das paredes do meu quarto. Diversas matérias desde o tempo que eu era apenas um adolescente que não sabia o que fazer e optava pelo mais fácil: fingir ser algo. Bem, se você finge por muito tempo, você pode se apaixonar verdadeiramente. E foi o que ocorreu comigo. A satisfação que sinto hoje por fazer o que faço é algo que não consigo fazer caber no papel: quem sabe não seja por isso esse sentir morno que tenho ao finalizar cada trabalho? Talvez seja medo de que seja o último, de que minhas ideias sejam consumidas pela mesmice contraproducente de quem se sente realizado.
Dei muito duro para chegar a essas cinco obras publicadas, e não falo sobre acordar às 7h da manhã para trabalhar e parar somente às 7h da noite. Nos últimos dois anos, posso dizer que só não estava trabalhando nos momentos em que estava dormindo – isso quando eu não sonhava estar trabalhando. Observar as pessoas, os lugares, absorver sentimentos e devolvê-los de forma a não se comprometer exageradamente. Assim são meus dias. A perceptividade é meu céu e meu inferno. E não falo sobre ser depressivo, mas, sim, sobre perceber as pequenas farpas que levam outras pessoas a estarem tão angustiadas e exaustas.
Olho para trás e vejo os sonhos que realizei: são curvas cada vez mais distantes que o retrovisor da minha memória já não foca com a mesma exatidão. Começo a me valer então das testemunhas, por isso é fundamental o público, as testemunhas. Só há show se houver plateia. 
E eis a importância desse fechamento de ciclo que ocorrerá domingo na cidade em que cresci, foi por isso que fiz questão de que fosse aqui e de que fosse um show aberto ao público. Dessa vez eu não quero fazer a curva sozinho, eu quero sentir que já não faço só por mim.

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