Em Brasília, jovens agricultores da Serra mostram sua força e seu desejo de fomentar sucessão familiar

Cerca de 30 jovens da região, incluindo de Bento Gonçalves, estiveram visitando o Congresso Nacional na última semana, para entregar uma Carta Aberta da Juventude Rural. O objetivo é buscar apoio para novas políticas públicas em prol da agricultura familiar e dos jovens no campo

Fotos: Reprodução/Facebook

Desde 1991, os jovens agricultores gaúchos são representados pela Comissão Estadual de Jovens. Mas foi nos últimos anos que o grupo passou a ganhar ainda mais força. Na região da Serra Gaúcha, os novos agricultores contam com a representatividade da Juventude Rural, da Regional Sindical Serra, um dos braços da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (FETAG-RS). “Entre 2014-2015 passamos a realizar mais eventos, mais formações. Os jovens passaram a se mobilizar mais”, relata uma das coordenadoras de jovens da regional Serra, Mariana Caroline Marcon.

Na última semana, no dia 11/05, o grupo fez história. Cerca de 30 jovens de diversas cidades da região, incluindo Bento Gonçalves, foram a Brasília entregar uma Carta Aberta aos deputados e senadores. Os agricultores foram recebidos pelos deputados federais gaúchos Heitor Schuch, Elvino Bohn Gass e Dionilso Marcon e também pelo senador Paulo Paim. “Um grande dia para a agricultura, para a juventude regional, estadual e nacional”, escreveu o grupo nas redes sociais.

Na carta, os jovens ressaltaram sua importância no meio rural e solicitaram valorização e ações públicas em prol da juventude rural. “Somos jovens agricultores familiares, protagonistas do meio rural em que vivemos, sucessores das propriedades rurais, da cultura, dos costumes e tradições de nossos pais e antepassados. Somos produtores de alimentos, responsáveis pela diversidade de culturas que vão às mesas da população, como hortaliças, legumes, frutas, produtos de origem animal, produtos de agroindústrias familiares, entre outros, totalizando cerca de 70% dos alimentos consumidos no país, conforme dados do IBGE”, destacaram.

Na oportunidade, o grupo também entregou uma carta da Regional Sindical Serra e da Escola Família Agrícola da Serra Gaúcha (Efaserra), solicitando apoio do Poder Público. No documento da Efaserra, a escola relata a dificuldade de estimular jovens a continuarem estudando após o Ensino Médio, tendo em vista que “tecnologias, processos de mecanização, adoção de modelos agroecológicos e mais saudáveis ao planeta exigem permanente aprendizado”. Por isso, pedem agilidade na aprovação de projetos em tramitação no Congresso Nacional que buscam ofertar Ensino Superior gratuito a estudantes egressos da educação do campo, “ofertada em instituições credenciadas”.

A importância da representatividade

Em 2018 e 2021, a Juventude Rural Serra realizou seus primeiros encontros regionais de jovens, a fim de integrar os novos agricultores e possibilitar que conheçam diferentes realidades. “É uma oportunidade que os jovens têm de trocar ideias, ajudar a resolver os desafios nas propriedades, se reconhecer enquanto sujeitos do campo e fazer a diferença. Toda juventude trabalhadora rural pode fazer parte, seja sindicalizado, ou não”, comenta a coordenadora Mariana.

O objetivo é promover o terceiro encontro regional da Serra em novembro. “No segundo encontro, no ano passado, fizemos uma parceria com o ‘Mão Amiga’, do frei Jaime Bettega, quando pudemos refletir sobre quem somos e quais são os nossos objetivos. A partir disso, construímos nossa carta da Juventude Rural, que foi entregue na semana passada em Brasília”, conta.

No total, a FETAG conta com 23 regionais, com comissão de jovens bastante fortalecidas. Desde a criação da comissão estadual, os jovens foram protagonistas para a criação de diversas políticas públicas no campo. Ao longo dos anos, foram realizadas marchas, encontros, festivais e cursos de formação. Com frequência, o grupo da Serra se reúne de forma presencial ou on-line para prestar apoio um ao outro e fortalecer os laços.

“Nós juntamos forças para mostrar que somos protagonistas e que gostaríamos de ser ouvidos. Estamos dispostos a contribuir para fazer a diferença no campo e na sociedade”, afirma Mariana.

E os resultados das últimas ações e da viagem até Brasília já podem ser percebidos. O grupo tem alcançado, passo a passo, mais visibilidade para os jovens do campo. “A expectativa é que se abram muitas portas para nós. Que possamos qualificar ainda mais o nosso trabalho e mostrar que estamos preparados para ocupar espaços de liderança. Tenho certeza que essa juventude [de hoje] está mais preparada ainda e que servirá de inspiração para muitos outros [jovens agricultores]”, comemora.

Sucessores do campo, da cultura e das tradições

Apesar do grupo numeroso e unido na Serra Gaúcha, ainda são muitos jovens que preferem seguir outros caminhos e acabam não dando continuidade à agroindústria da família. Incentivar esse público é um dos principais objetivos da Juventude Rural.

Conforme a coordenadora Mariana, em muitos casos não se trata da falta de vontade dos jovens, e sim do pouco espaço oferecido pelas famílias. “Muitos não conseguiram ter nem sequer um espaço de fala. É uma questão complicada que envolve muitas gerações. Às vezes, na mesma propriedade, há os avós, os pais e os filhos. São vivências diferentes e o jovem acaba não tendo a oportunidade de participar”, analisa.

Mesmo assim, o cenário parece ter se mostrado favorável nos últimos anos. Muitos, inclusive na região, já são responsáveis pela administração dos negócios e da realização das feiras nas cidades. “Não é sobre achar culpados, mas sobre pensar em conjunto para que haja uma continuidade. Percebemos que a juventude está mais empoderada e empenhada em encontrar soluções para permanecer no meio rural”, finaliza.

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