Em expedição fotográfica, bento-gonçalvense escala uma das montanhas mais altas das Américas

Maria Alberici Putton, de 22 anos, viveu intensamente nove dias de muitos desafios físicos e psicológicos, mas também de muita apreciação e autoconhecimento no Cerro Mercedário, na Cordilheira dos Andes

Registro da fotógrafa retornando do acampamento 4 para o Refugio CM, no fim da expedição. Crédito: Maria Alberici

Ao viajar com os pais para destinos inusitados quando criança, a fotógrafa e montanhista Maria Alberici Putton não percebia que estava alimentando um espírito curioso e aventureiro. Entre suas principais lembranças de infância estão as histórias contadas pelo pai Eduardo Putton sobre suas experiências em escaladas, pedaladas e outras atividades em meio à natureza – a maioria registrada em fotografias. Em 2019, uma imagem de seu pai escalando um vulcão no Chile despertou o interesse de Maria nas escaladas. “Em dezembro [daquele ano] eu, meu pai e minha mãe [Simone Alberici Putton] fomos de carro até esse vulcão chamado Villarrica. Contratamos a atividade e escalamos. Eu entrei em exaustão física e falei que jamais subiria uma montanha na minha vida. Mas quando descemos e eu vi o que tinha subido [2.847 metros], logo mudei de ideia”, conta Maria.

Aliado ao amor pela aventura e pela natureza, a bento-gonçalvense passou a fomentar outra paixão em sua vida: a foto. Cursando Fotografia na Universidade de Caxias do Sul (UCS), a jovem comprou sua primeira câmera em 2019 e deu início a uma carreira promissora. “Quando eu era criança meus pais não deixavam usar as câmeras que tínhamos em casa porque tinham medo que pudesse estragar. Então eu pegava escondida, fazia algumas fotos e depois apagava. Aos nove anos meu pai me comprou uma câmera simples e venho fotografando desde então”, conta. Logo na experiência do vulcão com os pais, percebeu que poderia unir as duas paixões e captar os momentos vividos em suas futuras aventuras – que incluíram uma expedição na Amazônia, na Chapada dos Veadeiros e em Santa Catarina, onde auxiliou a bióloga Maysa Santoro na produção voluntária de projetos ambientais.

No ano passado, já se sentindo transformada por essas vivências, Maria não pensou duas vezes ao aceitar o convite do montanhista Henrique Franke para escalar o Cerro Mercedário, uma das montanhas mais altas da Cordilheira dos Andes, na Argentina, e também das Américas. Foram cerca de dois meses de preparação física e psicológica, fazendo longas e acentuadas distâncias com peso nas costas. No dia 4 de janeiro deste ano, Maria saiu de Porto Alegre acompanhada de outros quatro montanhistas para dar início à – até o momento – maior jornada de sua vida. “Deixamos o carro no refúgio [parte inicial da escalada, na província de San Juan] e iniciamos a caminhada a uma altitude inicial de 3.200 metros. Uma das minhas maiores curiosidades era saber como meu corpo iria reagir ao ar rarefeito. E logo ao sair do carro já me senti mais ofegante. Até tomar água cansava”, recorda.

Pré expedição, fazendo checklist de equipamentos CM. Crédito: Maria Alberici

A experiência

Uma grande mochila laranja garantiu a sobrevivência de Maria durante nove dias de montanha. Dentro, um saco de dormir, dois isolantes térmicos, uma barraca, um prato, um copo alto, talheres, escova de dente, pasta de dente e um lenço umedecido, além de um pesado equipamento fotográfico e algumas peças de roupa para protegê-la das temperaturas negativas na montanha. Os equipamentos mais pesados como panelas e fogareiros eram levados pelos mais fortes do grupo. Para auxiliar na postura e na distribuição do peso, os montanhistas utilizaram dois bastões de caminhada. “A gente volta a ser primata, prestando atenção em como caminha, como come e bebe e no que coloca para fora”, compara.

A subida do Cerro Mercedário é dividida em seis etapas: refúgio [ponto de partida], primeiro, segundo, terceiro e quarto acampamento e cume [o ponto mais alto da montanha]. Entretanto, ao contrário de algumas montanhas mais movimentadas, não há qualquer estrutura para auxiliar os montanhistas. “Tem que ter uma boa logística e estratégia. Se alguém passar mal, precisa descer, porque dificilmente chegará resgate”, comenta Maria. A comunicação na montanha entre os participantes da expedição era feita por meio de dois rádios que ficavam com os guias Henrique Franke e Fabio Selau. Já para se comunicar com os pais e amigos, Maria conta que utilizava um rastreador via satélite. “Podia enviar e receber mensagens de até 140 caracteres. Eu também tinha um GPS que poderia utilizar para pedir resgate caso precisasse”, revela.

Diante de uma mochila de, aproximadamente, 30 kg, Maria e seus colegas de expedição dividiam a escalada em duas partes. Ao chegar a algum dos acampamentos, todos os equipamentos e roupas mais pesadas que seriam utilizadas apenas no pico da montanha eram separadas e levadas até o próximo acampamento, enquanto a outra parte dos apetrechos ficava na parte debaixo. “Isso também é importante para dar um ‘baque’ no corpo diante da altitude mais alta. A gente sobe até o próximo acampamento, deixa as coisas mais pesadas lá, fica um tempo para que o corpo se acostume com a altitude, e retorna para o acampamento anterior para dormir”, conta.

No acampamento 1 Guanaquitos (3600m) CM. Crédito: Maria Alberici

No momento da subida do acampamento dois para o três, Maria recorda que passou mal, com sintomas de ânsia de vômito e dor de cabeça. “Naquele dia subimos quase 800 metros de desnível e meu corpo sentiu bastante. Senti meu pulmão espremer, pedindo oxigênio. E cada pessoa reage de uma forma diferente. Nosso líder Henrique, por exemplo, sentiu antes que eu. Outro montanhista de 54 anos não sentiu nada a montanha inteira”, explica. Por conta da falta de oxigênio, o corpo passa a produzir maior quantidade de glóbulos vermelhos, o que deixa o sangue mais grosso. Para melhorar, Maria conta que tomou um remédio infantil para afinar o sangue, um anti-inflamatório e muito, mas muito líquido.

Além da alteração corporal devido à altitude, Maria recorda que o frio intenso, a falta de apetite – aliada à comida instantânea pouco saborosa – e a impossibilidade de manter a higiene no local levam os montanhistas a sentir um grande desconforto. “Eu não conseguia ficar sentada na barraca porque era muito pequena. Não conseguia me encostar em nenhum lugar porque era frio. Não tinha conforto de paladar e me sentia sempre suja. Isso acaba cansando bastante o psicológico”, relata.

Sobre a hidratação, Maria conta que, até o acampamento dois, havia água própria para consumo disponível na montanha. Nos acampamentos seguintes, seu grupo precisou buscar água de glaciar [congelada]. “É uma água sem minerais que não hidrata. Então precisamos consumir apenas em forma de chá ou suco de saquinho e usar para lavar louça e para higiene”, explica. Maria ainda conta que todos os lixos são recolhidos e deixados no acampamento para que, na volta, possam ser levados embora.

O companheirismo

Uma comunidade unida e disposta a ajudar. Diante dos grandes desafios enfrentados na montanha, a empatia se sobressai. Em um dos acampamentos, Maria e seu grupo enfrentaram um grande temporal, causando choques ao encostar nos bastões ou nas roupas. Naquele momento, dois brasileiros se aproximaram do grupo pedindo auxílio. “Eles estavam subindo e, quando viram o temporal, se assustaram, largaram tudo e voltaram para baixo. Eles não tinham nem barraca, nem roupa. Cada um juntou um pouco do que tinha para ajudá-los”, recorda Maria. “Naquele dia, a gente ouvia os trovões correndo ao redor da montanha e a luz que entrava na barraca era muito forte”, continua.

Em outro momento, um dos montanhistas, Marcos Bogado, passou mal e precisou desistir da expedição, sendo acompanhado pelo guia Fábio, que estava preparado para dar assistência a quem precisasse retornar. Ao escutar que um dos colegas desistiria, Maria conta que pensou em também parar a expedição, mas foi incentivada por Henrique a seguir até o quarto e último acampamento. “Naquele momento eu passei a realmente aproveitar a montanha. Parecia que o mundo tinha parado. Começou a nevar, o céu estava azul e cada vez que a gente subia mais o horizonte se abria e eu via montanhas diferentes”, relata. Na chegada ao quarto acampamento, à sua espera estava uma mulher argentina desconhecida, que a recebeu de braços abertos e a acolheu em sua barraca com chá quente. “É uma comunidade muito próxima, todos se ajudam”, comenta.

Gustavo Mallard, Maria Alberici e Henrique Franke no acampamento 4 Hoyada (5660m) CM. Crédito: Maria Alberici

Os aprendizados

Maria avalia que, em sua concepção, escalar uma alta montanha exige 30% de físico e 70% de psicológico. Em vários momentos, o desconforto, o frio, o cansaço e a longa distância restante a sinalizavam para desistir. “Mas se pensarmos em chegar ao grande resultado, desistimos logo no início. Temos que pensar em alcançar pequenos objetivos como chegar ao próximo acampamento, para depois analisarmos se conseguiremos seguir adiante”, reflete. No quarto acampamento, Maria decidiu que era hora de parar. A 5.660 metros de altitude, a jovem sabia que já tinha alcançado o seu ponto mais alto. “No terceiro acampamento os dois brasileiros que encontramos anteriormente nos falaram que iriam desistir porque estavam cansados. E também porque já tinham alcançado o seu cume: o homem havia pedido a mulher em casamento e ela havia aceitado. Isso me fez entender que, chegar lá em cima, às vezes não é o que importa”, declara Maria.

A jovem ficou aguardando sozinha na montanha os dois colegas de grupo, que subiram até o topo, por cerca de 15h. Após retornarem ao acampamento quatro e descansarem por algumas horas, o grupo começou a descer. Foram cerca de oito dias para subir e apenas nove horas para descer. “A gente desce praticamente correndo”, comenta.

De volta ao conforto da cidade, Maria já havia percebido uma nova transformação em si. A montanha, segundo ela, ensina. Ensina a não se frustrar ao não alcançar um objetivo de primeira. Ensina a andar a passos lentos e ter paciência. Logo, Maria pretende retornar ao Cerro Mercedário e chegar ao cume, mas também está nos planos novas expedições em diferentes partes do mundo. Em oito anos, a meta é escalar o Monte Everest.

A fotografia

Cada passo, cada desafio e cada momento único vivido na montanha, Maria estava registrando por meio de suas lentes. Desde que começou na fotografia, a jovem conta que se inspira nos processos, “em como a gente chega a um resultado final. E a montanha tem muito disso. A gente não chega ao cume de uma vez só. E chegar nem é tão importante, mas sim o aprendizado e a jornada de autoconhecimento que passamos durante o processo”, analisa.
Suas fotos falam por si só. Os tons quentes levam o observador para perto daquela pessoa, daquele momento e daquele lugar. É uma forma de humanizar e conectar. “Eu faço foto com propósito. O que minha câmera vê, é o que eu vejo. E o que eu mais gosto na vida é de contar histórias. Todo mundo senta para escutar. E fotografia é história”, comenta.

Em suas viagens, Maria revela buscar a quebra de preconceitos e tabus sobre diferentes culturas. “Nenhuma cultura é pior ou melhor que a nossa, somente diferente”, afirma. “E eu vivo por experiências, sentimentos e memórias. Experimento, sinto e o que sobre é memória, tanto na cabeça, quanto em foto. Por isso a fotografia é minha companheira. E convido a acompanharem minhas redes sociais, onde mostro o preparo, a rotina e as próximas expedições também”, declara.

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