Escassez e preços altos das matérias-primas freiam a produção industrial gaúcha

A indústria gaúcha continua a sentir o impacto negativo provocado pela escassez e o preço elevado da matéria-prima. “Temos falta ou alto custo dos insumos em quase todos os setores da indústria, o que torna o cenário preocupante”, afirma o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), Gilberto Porcello Petry. Segundo Petry, a indústria convive com indefinições que se agravaram durante a pandemia, provocadas em parte por reajustes nos preços que superaram os 100%, podendo alcançar até os 300% em algumas situações. “Quanto mais complexo for o setor e com maiores etapas de produção, maior é o risco de ser afetado por essa crise nas cadeias de suprimentos”, reforça. Já são quatro trimestres consecutivos que a indústria indica a falta ou o alto custo da matéria-prima como o principal problema enfrentado.

Nos dois primeiros trimestres de 2021, a falta ou o custo dos insumos foi o maior entrave apontado em pesquisas de Sondagem realizadas pela FIERGS com indústrias gaúchas. De janeiro a março, 74,4% citaram este problema, percentual que subiu para 75% entre abril e junho. De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast), Gerson Haas, o problema da escassez de insumos se acentuou durante a crise da pandemia, com aumento dos preços no setor que chegaram a ultrapassar os 100%. Ao usar muita matéria-prima importada, o segmento é bastante impactado pelos valores e pela restrição de fornecimento.

O aumento de consumo de plástico durante a pandemia foi influenciado, entre outros fatores, pela produção de bilhões de seringas e máscaras descartáveis que utilizam o insumo, assim como pelo crescimento do serviço de entrega de refeições em residências com embalagens plásticas. Além disso, pontua Haas, que não vê a possibilidade de alteração nesse cenário ainda em 2021, com a falta de vidro no mercado, muitas indústrias migraram para o plástico para embalarem seus produtos, aumentando a demanda. Para ele, trabalhar mais a economia circular, reciclando e reutilizando embalagens plásticas, além de contribuir com o meio ambiente, ajudaria a enfrentar a escassez no futuro.

Já nos setores industriais que utilizam o aço, a dificuldade de abastecimento segue preocupante. “O aço teve uma certa normalização, mas ainda não está 100% resolvido”, diz o vice-presidente de relações institucionais do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul e Região (Simecs), Ruben Bisi. O problema maior está no fornecimento de aços especiais, utilizados por exemplo na fabricação de ferramentas de corte. Na China, observa Bisi, o preço do minério de ferro já mostra redução, mas ele recorda que entre março de 2020 e março de 2021, o reajuste na tonelada do aço chegou a 210% para empresas menores em negociação com distribuidores. Para as empresas maiores, com condições de comprar diretamente da usina, esse aumento chegou a 80%.

Um levantamento feito em junho deste ano pelo Simecs entre suas empresas associadas mostrou que 66% indicaram dificuldades em conseguir aço para a produção. Para 43% delas, o aumento nos preços de alguns tipos de aço superou os 100%. Bisi aponta para outro problema grave, a falta de semicondutores que paralisou a produção em fábricas como a Marcopolo e a GM, entrave para o qual não vislumbra solução no curto prazo, visto que as fabricantes de semicondutores têm priorizado o fornecimento de peças para a produção de televisores, celulares e games.

 

PERDA DE COMPETITIVIDADE – Situação semelhante vive o setor de Máquinas e Implementos. A variação dos custos de fabricação considerando insumos podem chegar em 150%, até 300%, ependendo do tipo de matéria-prima, tecnologia, disponibilidade e fonte de abastecimento que a máquina exige. "Hoje estamos convivendo com essa instabilidade nos preços e insegurança no cálculo dos custos", afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Máquinas e Implementos Industriais e Agrícolas de Novo Hamburgo e Região (SinmaqSinos), Marlos Davi Schmidt, destacando que o cenário só não é pior pelo nível das vendas e porque as indústrias, com adequações realizadas em suas estruturas, estão administrando a situação, como o fortalecimento das parcerias com os fornecedores. Ele lembra que o fechamento de um pedido por vezes pode demorar dois, três, seis ou até 12 meses para a confirmação.

Na indústria de calçados Piccadilly, de Igrejinha, a solução encontrada foi a de reforçar estoques antecipando compras. O diretor de compras e logística da empresa, Josué Kunst, afirma que o impacto na matéria-prima do calçado foi, em agosto de 2021, 30% superior ao mesmo mês do ano passado, sendo impossível repassar todo o reajuste para o consumidor. Então, foi preciso buscar ganhos de eficiência e rever a margem de lucro. “As vendas foram impactadas, porém no segundo semestre de 2021 começa uma normalização, em nível anterior ao da pandemia”, observa.

Kunst cita que papelão, plástico, aço, resina, fios, tecido e espumas foram os insumos que mais pesaram no reajuste. O papel, por exemplo, subiu mais de 100% em um ano, enquanto a resina, 80%.

 

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