“Eu tenho talento para viver e ser feliz”, afirma atleta paraolímpica Rosângela Dalcin

A atleta paralímpica Rosângela Dalcin emocionou as mais de 150 pessoas que participaram de sua palestra na 4ª edição do Café Sensorial, na manhã da última sexta-feira, dia 19. O evento, organizado pelo Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento Gonçalves (SEC-BG), abordou o tema “Acessibilidade como diferencial competitivo”. Rosângela falou sobre sua história de vida, os desafios de viver em uma cadeira de rodas e as lições que as limitações lhe trouxeram. Além dela, o diretor da Igualla Soluções em Acessibilidade, Júlio Ortolan, também palestrou no encontro, realizado no Dall’Onder Grande Hotel.

Rosângela ficou paraplégica depois de sofrer um acidente, no ano de 1985, na Rota do Sol, em Caxias do Sul. Ela era passageira do caminhão que o seu marido dirigia e estava grávida de oito meses. O marido morreu e ela perdeu o bebê. Em virtude do acidente, ela sofreu uma lesão definitiva. “Na época, os médicos falaram que não foi o acidente que causou a lesão na coluna, mas a forma como eu fui transportada até o hospital. Fui socorrida por populares que me passaram de colo em colo e me levaram no banco de trás de uma camionete até a emergência. Cheguei a cair no chão do carro, pois o motorista estava muito nervoso. Ou seja, fui transportada sem qualquer cuidado. Por isso, é sempre importante não mexer em uma vítima de qualquer acidente antes do socorro chegar”, comentou Rosângela.

Durante a palestra, ela contou que demorou mais de dois anos para aceitar que ficaria paraplégica para o resto da vida. Ela cogitou morrer a ter que viver na cadeira de rodas. “Depois que recebi alta, fui até o Hospital de Reabilitação Sarah, em Brasília. Pensei que lá eu voltaria a andar, mas, na verdade, fui aprender a conviver com minhas limitações, a andar de cadeiras de rodas, a me movimentar, a fazer minhas necessidades, tudo”, revela. “O médico comentou que em dois anos eu poderia mostrar alguma evolução. Durante esse tempo, alimentei a esperança. Dizia para minha mãe que se isso não acontecesse eu iria me matar”, confessa.

Passados dois anos, ela aceitou seu estado paraplégico e decidiu que iria ser feliz. “A vida continua e se eu não fizesse nada eu paralisaria minha mente também. Eu tenho talento para viver e ser feliz. Decidi me aceitar e, a partir deste momento, as pessoas também me aceitaram. Comecei a fazer até piada comigo mesmo”, brinca.

Rosângela conta que por diversas vezes chegou a receber esmola na rua, pelo simples fato de estar de cadeira de rodas e que muitas pessoas se dirigem a acompanhante dela, ao invés de falar diretamente. “Tenho deficiência física e não mental. As pessoas podem falar comigo”, afirmou, aos risos.

Esporte que muda a vida

Um dos momentos mais marcantes de sua vida foi quando descobriu o esporte paralímpico, no ano de 1996. Atleta de tênis de mesa, Rosângela coleciona mais de 100 medalhas, foi considerada a melhor das Américas e a 13ª do mundo, e, por causa do esporte, conheceu diversos países, como México, Espanha, Holanda, Argentina, Venezuela, Costa Rica e China.

Concursada desde 1992, Rosângela atua hoje na Junta Comercial de Bento Gonçalves, é formada em Direito e leva uma vida normal. “O trabalho dá dignidade, a faculdade dá conhecimento e o esporte supera limites”, afirma a atleta.

No entanto, ainda há necessidade de muitas mudanças para que o cadeirante possa ter mais dignidade e acessibilidade. Segundo Rosângela, muitos hotéis, restaurantes, lojas e estabelecimentos em geral não se preocupam com esse quesito. “No hotel, os boxes de banheiro dificultam a entrada da cadeira de rodas de banho. Um simples porta-sabonete e xampu também fazem falta. No comércio, os degraus e provadores pequenos impedem que entremos e experimentemos roupas. Nos locais que não dispõem de acessibilidade eu não entro e também me recuso a acessar um local pela porta dos fundos”, contou.

Clientes em potencial

A falta de acessibilidade e o descaso com pessoas com deficiência física foram alguns dos assuntos abordados pelo diretor da Igualla Soluções em Acessibilidade, Júlio Ortolan. Segundo ele, mais de 155.000 pessoas na Serra Gaúcha possuem alguma limitação. “Só nas mãos destas pessoas giram mais de R$ 3 milhões. Elas consomem, gastam, são clientes em potencial. Quem inova e disponibiliza acessibilidade e diferenciais para esse público certamente verá seu negócio crescer”, afirmou o empresário.

O objetivo do Café Sensorial, que vem sendo realizado anualmente desde 2013, é dar ênfase na inclusão dos deficientes no mercado de trabalho e melhorar a vida de todos. Conforme a presidente do SEC-BG, Orildes Maria Lottici, é fundamental trabalhar a inclusão. “Queremos despertar nas empresas, nos mandatários públicos e na comunidade que pessoas com deficiência física existem e precisam ser respeitadas e ter o direito de ir e vir garantido. Precisamos olhar para a inclusão!”, afirmou. 

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