Falta de monitores ainda é um problema para crianças com deficiência em Bento

A recorrente falta de monitores para auxiliarem estudantes com deficiência inseridos em escolas regulares de ensino continua sendo um grave problema em Bento Gonçalves. Um grupo de pais de crianças matriculadas em instituições municipais procurou o SERRANOSSA para relatar, mais uma vez, sua insatisfação. A principal crítica recai sobre a lacuna desses profissionais na rede municipal, sobre a constante troca daqueles contratados e, ainda, sobre a falta de qualificação para lidar com alunos especiais. 

Em um longo desabafo, a mãe de um estudante de 13 anos com deficiência física e mental relatou os desafios de aprendizado diante desse problema. “Desde que ele começou a ir para a escolinha sempre foi a monitora o problema. Todo ano era a mesma história. Começava o ano sem monitora, demorava para conseguir e depois a monitora decidia ir embora”, conta a mãe. Em apenas um ano, a mãe revela que quatro profissionais chegaram a passar pela escola de seu filho, o que representaria um grande prejuízo ao desenvolvimento do estudante com deficiência em sala de aula. “A criança acaba se adaptando com aquele tipo de profissional. Ele se torna seu porto seguro. Então entra outra pessoa e a criança tem que passar por todo processo de adaptação de novo. E isso com crianças com deficiência, principalmente autistas, é muito complicado. A criança autista precisa de rotina”, argumenta. 

Além de interferências no processo de aprendizagem, desenvolvimento e socialização de seus filhos, os pais ainda relatam o prejuízo financeiro às famílias. Com a falta constante de monitoras, os responsáveis não conseguem manter um emprego fixo. É o caso da mãe de um menino de oito anos, com deficiência visual e autista. “Eu já tive que largar o emprego formal por conta de toda hora a escola estar chamando, porque além de não ter monitores suficientes, aqueles que tem, e mesmo os professores, não estão preparados para atender estudantes com deficiência. Qualquer atitude um pouco fora da normalidade já estão ligando para os pais irem buscar”, lamenta. 

Sobre a qualificação dos monitores, a mãe ressalta que a maioria dos profissionais que já trabalharam com o seu filho não tinham preparo adequado para lidar com ele. “Hoje não tem nenhuma pessoa na cidade que saiba braile. Estamos precisando buscar [essa assistência] por meios próprios”, revela. A mãe ainda comenta sobre a falta de salas especializadas para atender crianças deficientes quando elas precisarem de um tempo afastadas dos demais alunos. “Cidades próximas, como Caxias e Veranópolis, têm essas salas e profissionais capacitados”, compara. 
Conforme informações da secretaria municipal de Saúde, os profissionais de apoio (os monitores) são orientados e capacitados pela equipe do Núcleo de Inclusão e Diversidade (NID) e pela própria escola onde irão exercer o cargo, sendo “diretamente acompanhados pela equipe diretiva, mais especificamente pela supervisora escolar e orientador educacional”. Para se candidatar, a única exigência é ter Ensino Médio completo.

“A pessoa se candidata, vê que não é isso que queria, porque precisa ter paciência, e acaba desistindo. Os profissionais precisam saber exatamente como lidar com cada aluno e sua deficiência, como conversar, brincar, saber a hora certa de sair da aula. E acima de tudo, tem que amar. Até porque as crianças sabem quem gosta e quem não gosta delas”, comenta a primeira mãe. “E com a pandemia ficou ainda pior, porque o monitor precisa ter muito mais cuidado. As crianças precisam respeitar os protocolos, e com deficiência é mais difícil, é preciso um acompanhamento mais minucioso”, complementa.


Imagem ilustrativa. Crédito: Taylor Wilcox/Unsplash

O que diz a prefeitura?

Apesar das críticas, a secretaria municipal de Educação argumenta que o município tem dado uma assistência superior àquela prevista em lei acerca das crianças com deficiência. Conforme a legislação, a rede municipal teria a obrigação de fornecer um profissional de apoio para “alimentação, higiene e locomoção”. Mesmo assim, admite a problemática na contratação de monitores. “O profissional de apoio geralmente é estagiário, e o estágio tem tempo determinado de serviço. Quando finaliza, nem sempre conseguimos manter a pessoa pela empresa terceirizada”, relata a secretária Adriane Zorzi.

De acordo com a secretaria, a contratação de monitores ocorre por meio de estágios na área da educação, empresa terceirizada ou contrato temporário. Entretanto, devido ao fechamento das escolas durante a pandemia, a prefeitura precisou suspender o processo de contratações. “Com a suspensão das aulas, estes profissionais não puderam ser contratados e buscaram outros trabalhos. Agora, a época do ano e falta de perfil dificulta a contratação”, revela a secretária. Com dificuldade de contratação, atualmente o município está com uma demanda de 10 profissionais, conforme dados da secretaria de Educação.

Em relação à falta de qualificação desses profissionais, Adriane contrapõe dizendo que há um acompanhamento pelo Núcleo de Inclusão e Diversidade (NID), que “orienta o trabalho educacional das equipes das escolas com os alunos público-alvo da educação especial”. Além disso, afirma que as escolas contam com o Atendimento Educacional Especializado (AEE), “que acontece nas salas de recursos multifuncionais [que existem apenas nas escolas de Ensino Fundamental] onde a criança/adolescente é atendida por professores com formação específica”. A secretária ainda ressalta que, para cada aluno, é elaborado um Plano Pedagógico Individualizado (PPI), no qual “constam as estratégias pedagógicas de acordo com as especificidades e necessidades individuais”. 

Atualmente, 2% dos estudantes da rede municipal são crianças/adolescentes com deficiência, de um total de 11.916 alunos. Segundo Adriane, ainda vale levar em consideração que “nem todos demandam o acompanhamento de um profissional de apoio (monitor), uma vez que é avaliada a funcionalidade deste educando no ambiente escolar, priorizando a autonomia e desenvolvimento do mesmo”. 

A solução na visão dos pais

Para os pais de alunos especiais, uma das soluções seria o fornecimento de um curso gratuito, não apenas uma capacitação, a fim de qualificar os monitores. Outra medida seria a realização de um concurso público, a fim de garantir estabilidade e um salário mais atrativo para esses profissionais.

Além disso, na opinião do pai de um menino com autismo, falta apoio da prefeitura e dos vereadores para garantir melhores condições de ensino das crianças com deficiência. “Eles falam muito em inclusão, mas está faltando empatia com essas crianças para poder solucionar o nosso problema. Meu filho vai para a aula uma semana sim e outra não porque a monitora precisa revezar com outras crianças. Isso prejudica muito o desenvolvimento deles e a vida profissional dos pais”, desabafa. 

Uma das mães ressalta que há vários pais contatando o Conselho Tutelar e entrando com ações no Ministério Público, a fim de resolver o problema, “Esse problema vem de anos. Lembro dos prefeitos falando sobre inclusão. Mas só porque é minoria, há esse descaso. Se fosse maioria, o problema seria visto com mais urgência”, opina. 
 

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