Inveja

Inveja, do latim “in videre”, não ver. Não ver a si, não reconhecer-se em si. A contemplação em outro do que em si falta.
Na Divina Comédia, o penúltimo andar do inferno, onde os cegos habitam com os olhos fechados por arame. A inveja cega, ofusca de tal forma o invejoso que ele deixa até mesmo de viver em si. Diante da comparação, vê-se mais pobre, mais feio e mais tolo. Mas nunca admite, nunca se derrama sobre a verdade do que ele gostaria de roubar para si ou simplesmente destruir.

Profanamos, assim, o eu. Na ânsia por escondermos tal cobiça, fingimos buscar qualquer outro defeito em outros e, na busca desses defeitos, acabamos por ainda mais assassinarmo-nos. Vivemos assim, sob constante comparação e em constante comparação nunca somos suficientes. Nunca olhamos para baixo, sempre para cima e, lá em cima, contemplamos entre asco e admiração o que a nós gostaríamos que coubesse.

Para as uvas inalcançáveis atribuímos um provável amargor e, assim, sem poder sentir o gosto, nos lambuzamos no amargo dos nossos fabricados julgamentos. Invejamos não por sermos humanos, mas, sim, por sermos humanos incapazes de progredir diante das nossas falhas e de nossas próprias humilhações. Abraçamos o desprezo ao que nem sabemos para sufocar o que de fato sabemos: que há naquele outras qualidades que eu não tenho.

Tantos sábios, se pudessem se reunir a fim de dar conselhos, um deles poderia ser: “Afaste-se dos invejosos”. Eles são fáceis de serem detectados e úteis muitas vezes para descrever a nós mesmos: se os suportamos muito próximos, devemos estar odiando o mesmo que eles odeiam.

A inveja quase nunca destrói ao outro. Ela é fraca, pois é um retrato do próprio dono. Porém, ela é extremamente destrutiva ao “eu”. Quem tanto inveja passa a empilhar defeitos em outros, defeitos esses que são apenas as qualidades que o observador – se pudesse – abraçaria.
Invejam-se corpos, estilos de vida, situações financeiras e amorosas. E quando se questiona: “Você é mais invejoso ou invejado?”, quase todos dizem “Sou invejado”. Assim, todos os ditos invejados inventam qualidades que eles próprios desconfiam não ter, e não as tendo, buscam com ainda mais afinco as uvas inalcançáveis, para, por fim, dizer a eles próprios sem nem conhecerem o gosto: “devem ser amargas”.

Tome cuidado com cada crítica a cada qual você se refere. Tome cuidado com cada nome que sai de sua boca – pessoas próximas ou não. Tome cuidado para a inveja não tomar seus olhos, cegar-lhe e, por fim, fazer com que você se torne alguém que pensa criticar defeitos, quando, na verdade apenas critica o que não pode ser e ter.

 

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