Irresponsabilidade faz abandonos aumentarem

Quem costuma acompanhar nas redes sociais páginas de entidades de proteção animal e perfis de voluntários percebeu o aumento dos casos de abandono – algo, infelizmente, comum na época de férias. Segundo estimativa do presidente da ONG Patas e Focinhos, Alexandre Faccenda, as denúncias cresceram de 15% a 20% em janeiro deste ano, se comparadas com o mesmo período de 2015. Os que mais sofrem com o descaso são animais velhos – geralmente com doenças ou limitações causadas pela idade – ou ninhadas.

O problema se intensifica, pois muitos voluntários viajam neste período e as entidades trabalham apenas com lares temporários, economizando despesas e evitando o inconveniente aumento de abandonos que a construção de um canil poderia trazer. “Uma hospedagem não sai por menos de R$ 30 por dia. Em um mês, custa quase R$ 1 mil, quantia que poderia ser usada para uma cirurgia. Não atendemos mais casos por não termos mais lares temporários. Para os voluntários não tem custo, pois a ONG banca gastos com alimentos e remédios”, exemplifica Faccenda.

Castrações

Os protetores relacionam o abandono, principalmente, à falta de regularidade nas cirurgias de esterilização de cães e gatos oferecidas pela prefeitura. Neste ano, por exemplo, o processo ainda não iniciou e aguarda definição da verba – em 2015, foram R$ 200 mil. Além disso, por questões burocráticas, são comuns interrupções nos chamamentos. “Um mês sem castrações pode estragar todo o trabalho do ano”, lamenta o presidente da Patas e Focinhos, que não consegue arcar com as esterilizações, por priorizar situações de risco – exceto denúncias de maus-tratos, pela falta de respaldo legal.

Mudança de comportamento

Recém-criada, a ONG “Todos por um focinho” privilegia o atendimento de maus-tratos e animais machucados – muitas vezes, atropelados por terem sido largados pelos donos. O encaminhamento para adoção segue regras rigorosas, incluindo vistoria da casa e avaliação das condições da família. Há cerca de quatro anos atuando na proteção animal, a diretora da ONG, Paula Trigo, comenta que percebeu mudanças de comportamento. “As pessoas têm mais consciência, quando veem um caso não viram as costas. Mas ainda tem muita gente que faz o mal, que envenena, mata ou abandona filhotes”, pondera. Por isso, ela defende a importância de campanhas de conscientização, especialmente nas escolas. “É pelo bem da cidade. Se não fossem as ONGs ou os vários protetores, quem iria fazer?”, questiona.

Na visão de Bruna, que há seis anos atua de forma voluntária na causa animal, os proprietários deveriam estar mais conscientes de suas responsabilidades

Falta de responsabilidade

Além das ONGs, há ainda voluntários que atuam de forma independente, mas não menos importante. É o caso de Bruna Zauza, que tem oito cachorros e, no momento, oferece lar temporário para três filhotes de gato (um deles já adotado). Dois cães já eram de estimação da família antes do envolvimento de Bruna com a causa, há seis anos. Os demais, a maioria mais velhos, foram adotados por não encontrarem interessados: dois foram resgatados por maus-tratos, e o restante abandonado. Um deles, inclusive, foi trazido do litoral, onde a família costuma veranear. “Há famílias que levam o animal para a praia e abandonam. Já resgatei diversos de lá”, conta Bruna.

Ela relata que abandonos próximo a casa de protetores ou de pessoas que gostam de animais são frequentes, e também reclama da dificuldade em encontrar adotantes, até mesmo para filhotes saudáveis. “Não sei o motivo, talvez as pessoas prefiram comprar animais de raça. Já ouvi gente dizer que não queria o cachorro porque tinha rabo grande ou porque tomava muita água e faria muito xixi. As pessoas estão exigindo demais, parece que acham que a gente tem uma fábrica de animais”, desabafa.

Para Bruna, o problema só terá solução quando os proprietários forem mais conscientes das suas obrigações. “Responsabilidade é o que falta para as pessoas. Se cada um cuidasse do seu animal ou doasse filhotes somente para quem tem a certeza de que vai cuidar, não existiriam casos de abandono e maus-tratos. Se não quiser mais o animal, tudo bem, mas procure alguém para doar”, aconselha.

Vanessa Tognon e Diego Tumelero Venturella levaram os seis cachorros de carro na mudança até a Paraíba

Cachorros na mudança

Em meio aos casos de abandono, há espaço para boas histórias, de pessoas que fazem de tudo para levar o animal de estimação consigo, mesmo que o destino esteja a quatro mil quilômetros de distância. De mudança para a Paraíba, o casal Vanessa Tognon e Diego Tumelero Venturella nunca cogitou a hipótese de deixar os seis cachorros para trás (três de 5 kg, um de 10 kg, um de 14kg e outro de quase 50kg). A ideia inicial era levar os peludos de avião, mas eles ficaram preocupados com alguns relatos de experiências negativas. Como os animais são sensíveis, optaram pelo percurso de carro. “Quem quer dá um jeito, quem não quer arruma desculpas”, resume Vanessa.

Depois de providenciar os atestados de saúde e comprar cintos de segurança especiais, a aventura teve início. Foram cinco dias de viagem. Em duas noites, eles acamparam com os pets e, nas outras duas, encontraram uma pousada que aceitava cachorros. “Tudo ocorreu melhor do que imaginei. Na maior parte do caminho, eles dormiram, foram uns anjos”, conta. Ao chegar ao destino, um novo desafio: encontrar uma casa com pátio cercado.  “Agora, estamos por aqui, juntos e felizes. Não desejo que ninguém nos parabenize ou diga ‘bela atitude’, pois foi o que tinha de ser feito. Simplesmente amamos eles e por isso não poderíamos deixá-los para trás", argumenta Vanessa. Em abril, eles retornam para Bento Gonçalves e os cachorros, claro, vêm junto.

Canil construído junto à casa do casal Janderson Martins Cruz e Rosimeri Caetano abriga animais abandonados às margens da BR-470

Casal constrói canil de resgatados

Cansados de ver diversos animais abandonados às margens da BR-470, o casal Janderson Martins Cruz e Rosimeri Caetano, há cerca de quatro anos, construiu um canil junto à casa onde moram, no bairro Nossa Senhora da Saúde. “Chegamos a ter 19 cães em uma época, e hoje temos nove. Alguns conseguimos encaminhar para adoção, outros acabaram ficando”, conta Cruz. Ele afirma que já presenciou diversos carros passando pelo local para largar os animais e que alguns são atropelados e morrem em seguida, sem ter a chance de um resgate. “Me preocupo em salvar o animal e não dá tempo de fotografar ou anotar a placa”, lamenta. A maior dificuldade do casal é com a compra de medicamentos, já que, por estarem no mesmo espaço, quando um dos cães fica doente, os outros também são contaminados. Interessados em ajudar podem entrar em contato pelo telefone (54) 9652 9382.

Denuncie

A falta de provas ou o medo de represálias é o que geralmente impede as pessoas de denunciarem os casos. Informações podem encaminhadas ao 3º Grupo Ambiental da Brigada Militar, pelo telefone (54) 3452 2968, e ao Fala Cidadão, a ouvidoria da prefeitura, pelo 0800 979 6866 e pelo e-mail [email protected] A lei municipal 5709/2013 prevê multa com valor inicial de R$ 1 mil. Também pode ser registrado Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), desde que seja possível comprovação do delito. Através das provas, será possível identificar o autor, que responderá judicialmente. A média é de dez registros por mês.

Fotos: Carina Furlanetto e Aquivo Pessoal

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