Jovens podem transformar o consumo do vinho brasileiro

Respeitar a temperatura do vinho, conservar em local escuro, com controle de temperatura e sempre na horizontal, apreciar a bebida em uma taça apropriada e pensar sempre na harmonização antes de abrir a garrafa. A nova campanha do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) quer desconstruir essas normas e cerimônias que existem em torno do consumo do vinho e, com isso, ampliar o consumo da bebida no país. 
A campanha “Seu vinho. Suas regras”, lançada neste mês, contará com ações que englobam os Millennials, conhecidos também como Geração Y, nascidos nas décadas de 1980 e 1990. O objetivo é criar uma aproximação com o perfil desse público, desmitificando o processo de escolha e consumo, além de levar uma mensagem mais leve, descontraída e menos burocrática da bebida.
A ideia foi bem aceita pelo setor, que não vê o consumo da bebida aumentar há muitas décadas.  De acordo com o presidente da entidade, Oscar Ló, investir em ações específicas para adultos de perfil mais jovem pode ajudar a consolidar o hábito no Brasil e, de forma responsável, ampliar o consumo per capita, que hoje é de apenas 2 litros por ano, segundo monitoramento da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). 
E jovens não faltam para ajudar nesta campanha para descomplicar o mundo do vinho. São centenas de enólogos, sommeliers e profissionais atuando em vinícolas, lojas especializadas, restaurantes, bares e em instituições ligadas ao vinho. Em Bento e região, muitos têm feito a diferença e, de acordo com o gerente de Promoção do Ibravin, Diego Bertolini, os resultados dessas ações poderão ser vistos nos próximos dois anos. “É um público socialmente ativo, que tem um perfil descontraído, de personalidade forte, seguro de suas escolhas, que faz questão de dar a sua opinião e exige liberdade no estilo de vida”, complementa.

Drinks com vinho também são apostas

O empresário Rodrigo Geisse, de 32 anos, que atua na renomada Cave Geisse, afirma que desmitificar o mundo do vinho é acabar com preconceitos em torno do consumo da bebida. “Para tomar vinhos e espumantes não é necessário ter um momento especial e nem uma mesa linda com ótimas taças e pratos perfeitamente harmonizados. O vinho pode ser consumido como a cerveja, sem regras pré-determinadas, basta querer, não importando o local, a hora, a taça e tampouco a comida”, assegura. 

O jovem, que estudou no Chile – país com consumo de 17,4 litros ano por pessoa –  afirma que lá muitos estudante se reúnem para fazer o esquenta com “Jote” – um drink com Coca-Cola, vinho e gelo. “Hoje está muito em alta os drinks à base de vinho, como o Aperol, Cleriquot e as sangrias e, por isso, a campanha está em sintonia com o público que queremos que descubra o mundo do vinho, pessoas sem estereótipos, com vontade de viver experiências e curtir a vida e seus prazeres. Com certeza o vinho pode fazer parte dessas histórias”, acredita. 

Liberdade de escolha

Para o gerente de marketing na Cooperativa Vinícola Garibaldi e presidente do Consórcio dos Produtores de Espumantes de Garibaldi (CPEG), Maiquel Vignatti, de 36 anos, a nova campanha irá incentivar as pessoas a consumirem o vinho da maneira que quiserem e com mais liberdade. “Por anos, vivemos a estabilidade no consumo dos vinhos e espumantes no mercado nacional e estávamos, até certo ponto, fadados a aceitar esta realidade. Se os millennials estão com a maior fatia do poder de compra do mercado brasileiro e dispostos a novas experiências, por que não dar a opção do vinho ou espumante para sua vida social?”, questiona. “Lembro que por anos me preocupava com a escolha da taça, com a temperatura, com a harmonização e até momentos ou motivos especiais para abrir um vinho ou espumante. Agora me sinto mais à vontade ao pedir um vinho com um hambúrguer, colocar um gelo na taça e até misturar o suco de alguma fruta com o meu espumante moscatel”, afirma.


 

Vinho no aquece da balada ou na beira da praia

O enólogo Roberto Cainelli Junior, de 29 anos, que comanda ao lado de sua família a Vinícola Cainelli, entrou de cabeça na campanha e adaptou todas as mídias para o novo posicionamento dos Vinhos do Brasil. Para ele, existe a necessidade de desconstrução das regras de consumo, a fim de tornar o vinho mais próximo dessa nova geração. “O vinho pode se tornar a bebida do dia a dia. Seja no churrasco de fim de semana com a galera, para tomar em casa para relaxar, no aquece para balada, na beira da praia, enfim. Isso não impede que as regras sejam esquecidas, mas isso cabe ao consumidor escolher se quer ou não segui-las”, comenta. “O vinho pode ir bem com um faisão temperado com ervas ou com um xis do boteco da esquina. O importante é incluir a bebida no dia a dia”, complementa.

Dentro desse propósito, o jovem enólogo tem apostado em vinhos com bom custo-benefício, com diferentes propostas de paladares e também vem investido em eventos que atraem diferentes públicos até a vinícola. Um dos destaques é o “Cordeiro com vinho”, onde os participantes apreciam a comida e a bebida em um ambiente descontraído e festivo.

Quem também concorda que os consumidores buscam um “vinho sem frescura” é a enóloga da Vinícola Salton, Sandi Marina Corso, de 28 anos. “A ideia é que o vinho esteja cada vez mais presente em situações cotidianas, nos jantares da turma, churrasco do final de semana, praia, piscina, balada, happy hour e não apenas em eventos mais formais. Vejo muita gente deixando de beber vinho porque acha que isso é quase um ritual, precisa da taça certa, de harmonização, entender de terroir, de variedades, ter uma adega climatizada e mais uma série de regrinhas. Temos uma infinidade muito grande de produtos nacionais de qualidade disponíveis no mercado, vários estilos diferentes que combinam com diferentes gostos, paladares e ocasiões”, complementa. 


 

Vinícolas estão preparadas para este movimento

A enóloga e sommelière Alexandra Mezzacasa, de 29 anos, comenta que muitos países produtores de vinho estão direcionando suas comunicações para o público millennial, mas nenhum deles foi tão disruptivo quanto o Brasil. Para ela, que atua na promoção dos vinhos brasileiros no Ibravin, as vinícolas estão preparadas para esse movimento. “Hoje as empresas oferecem vinhos e espumantes em embalagens diversificadas para diferentes momentos de consumo. O consumidor pode tomar espumante em latinhas, como refrigerante, ou abrir uma garrafa de vinho com tampa de rosca em um parque, dispensando o uso do saca-rolhas – instrumento ainda difícil de ser usado por quem não tem a prática”, observa. Para a profissional, o enoturismo também acompanha esse movimento. “Nunca se viu tantos jovens visitando as vinícolas, aproveitando os piqueniques e curtindo diversos festivais que misturam vinhos, música e gastronomia de forma descolada e divertida”.


 

O gerente de marketing da Cooperativa Vinícola Aurora, Rodrigo Valério, concorda que comunicar-se com a geração Y é essencial para a sobrevivência das marcas. A missão, no entanto, é repleta de desafios. “Agora vem o trabalho de cada empresa em desenvolver produtos e comunicar adequadamente para esse novo mercado. Na Aurora, incentivamos o aumento da base dos consumidores de vinho desmitificando o seu consumo. Em algumas campanhas bem específicas, como a linha de vinhos Marcus James, desde 2015 propomos ‘menos regras, mais vinhos’ e convidamos as pessoas a curtir mais a vida”, destaca. Além disso, a marca aposta em um produto que é a cara dessa geração, apesar de ter sido lançada há mais de 30 anos: o Keep Cooler, uma bebida leve, descontraída, voltada para o público jovem.


 

Sejam quais forem os resultados deste novo conceito, uma certeza 
todo mundo já tem: hoje quem faz as regras do seu vinho, é você!
 

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