Número de suicídios é maior entre jovens e idosos, aponta psiquiatra

Desde 2014, o mês de setembro tem sido dedicado à prevenção do suicídio no Brasil, a partir de uma iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM). O mês foi escolhido devido à celebração do Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, nesta sexta-feira dia 10/09, dando origem ao “Setembro Amarelo”. E iniciativas como essa têm sido peça fundamental para estabilização dos números nos últimos anos, conforme análise do psiquiatra de Bento Gonçalves Fabrício Grasselli. “Quero acreditar que algumas ações preventivas estejam ajudando a não ocorrerem esses quadros de maior gravidade que levam a pessoa a cometer suicídio. Podemos falar do próprio Setembro Amarelo e do Janeiro Branco, como uma forma de conscientização e ação preventiva. Antes, pouco se ouvia falar em combater o suicídio, talvez pelo tabu que envolve este assunto”, comenta.

E a importância dessas ações de prevenção se evidencia nos números em nível nacional e estadual. Anualmente são registrados cerca de 13 mil suicídios no Brasil. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 e 2020 foram 12.745 e 12.895 casos, respectivamente. No Rio Grande do Sul, o dado foi de 1.280 e 1.383 suicídios nos anos avaliados. “Conforme especialistas, o suicídio mata mais do que as mortes provocadas por guerras e homicídios e atinge, principalmente, a população de jovens na faixa dos 15 aos 29 anos e idosos acima de 70 anos”, revela o psiquiatra.

Apesar de, na pandemia, o número ter praticamente se estabilizado entre 2019 e 2020, o psiquiatra alerta para o aumento de casos de distúrbios do sono, estresse, depressão e outros problemas que envolvem a saúde emocional, quadros passíveis de evoluírem para situações graves. Conforme dados da ABP, cerca de 95% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. “São muitos fatores [que levam a pessoa a tirar a própria vida] e eles quase nunca aparecem sozinhos”, alerta Grasselli. “Os quadros de humor nos quais existe uma falta de esperança grande em sair do estado psíquico de sofrimento contribuem em grande parte. A alteração do estado psicológico e de consciência provocados pelo uso de substâncias psicoativas como álcool ou drogas também gera um aumento de probabilidades, pois reduz a capacidade de decisão mais racional”, cita o profissional. O psiquiatra ainda ressalta a relevância que os fatores externos podem ter sobre a saúde psicológica de alguém, causando vulnerabilidade. “Podemos citar o estresse causado pelo excesso de compromissos, casos de bullying, falta de apoio familiar e outros fatores”, exemplifica. 

Dessa forma, o médico psiquiatra ressalta a importância de um olhar global voltado ao assunto, não somente dos profissionais da saúde, como da população em geral, “para que consiga entender os sinais de que alguém em seu entorno esteja pensando em tirar a própria vida”. 


Fotografia ilustrativa. Créditos: Unsplash
 

Buscar e oferecer ajuda

A principal indicação para quem esteja passando por uma fase conturbada é a procura por profissionais da área da saúde mental, como psiquiatras e psicólogos. Além desses, Fabrício Grasselli ressalta que há outros canais que auxiliam a pessoa a superar situações que estejam causando sofrimento extremo. “Falo da possibilidade de acessar os CAPSs [Centro de Atenção Psicossocial], que oferecem esse apoio e que fazem parte da rede pública, sendo um serviço gratuito. Ainda, temos o contato, de forma gratuita, com o CVV (Centro de Valorização da Vida) através do número 188”, frisa.

Em Bento Gonçalves, a secretaria da Saúde destaca o serviço da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que visa cuidar de pessoas em situação de sofrimento psíquico. “As pessoas que já tentaram suicídio, ou mesmo aquelas que sugerem estar inclinadas para tal, estão em constante monitoramento pela nossa equipe de Saúde Mental, distribuída em todos os setores”, afirma o coordenador de Saúde Mental, Maurice Bowari.

O coordenador ainda cita que as pessoas em quadros depressivos moderados ou graves são acolhidas pelos CAPSs, passando por atendimentos individuais ou em grupo. “Ademais, caso se necessite, em caráter de urgência, temos a UPA [24h], a qual possui uma ala psiquiátrica que oferece todo o suporte necessário para tais situações”, complementa Bowari.

Mas mais do que a procura por ajuda, o psiquiatra Fabrício Grasselli destaca a importância de oferecer auxílio enquanto família, amigo e sociedade. Conforme o profissional, as pessoas devem estar atentas às possíveis mudanças sutis, ou não, de comportamento daqueles ao seu redor, como redução da socialização e solicitação de antecipação de passagem dos bens para o nome dos filhos. A partir da identificação desses e outros sinais, as pessoas podem auxiliar escutando e agindo, “de forma a criar um círculo de proteção com apoio e supervisão de familiares; buscar por tratamento especializado com psiquiatra, psicólogos, terapeutas ou, em casos de risco mais iminente, realizar a hospitalização em unidade adequada para proteger a pessoa dela mesma”, cita.

Para o psiquiatra, a sociedade tem avançado positivamente na vigilância quanto à pessoa suicida. Mesmo assim, Grasselli acredita que devamos fazer mais, a partir da ampliação do debate sobre o tema saúde mental. “Devemos trabalhar cada vez mais para que todos os profissionais de saúde, desde aquele do atendimento primário até o especialista, estejam unidos, interligados e falando a mesma linguagem. Também precisamos trabalhar na capacitação técnica de mais profissionais para tratar desta questão, entre outras ações. Penso que o caminho já existe e já está sendo percorrido, apenas precisamos investir e integrar mais”, afirma. 

Com o período de isolamento social vivido, principalmente, no ano passado, o médico acredita que as pessoas puderam parar para refletir sobre situações difíceis e sobre a finitude da vida, o que pode ter contribuído para uma mudança na forma de se lidar com a saúde mental. “A pandemia proporcionou essa reflexão para muitas pessoas, que passaram a valorizar mais os pequenos momentos, a importância do abraço, a importância do contato com o outro, muitas vezes banalizado pela correria do dia a dia”, reflete. 
 

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