O Dia das Coisas

Na semana passada fui surpreendido pelo “Dia do Gordo”. Fiquei feliz, todavia, afinal, eu me reconheço e já me aceitei gordo. Sempre comento: minha mãe me deu um remédio tão bom para o apetite quando eu era pequeno que ele abriu e não tem jeito de fechar, até hoje… 

Da mesma forma que temos o Dia do Gordo, temos: o Dia do Professor; o Dia do Médico; o Dia do Advogado; o Dia da Nutricionista; o Dia da Consciência Negra, oficializado por meio de lei federal há pouco tempo; o Dia dos Avós, o Dia do Irmão, que também foi há poucos dias; o dia do… etc… etc… etc… 

Mais uma vez, ao que me parece, os dias são criados, ainda que sob a cortina de homenagem merecida e prestada a cada uma das categorias agraciadas, em sua maioria, no que diz com os mais representativos, para mitigar uma culpa. Sim, um sentimento individual elevado ao status de coletivo, por uma nação. E, pior: oficializado perante uma nação. E digo isso porque, como feriados universais, e comemorados no mesmo dia por todos os países do mundo, temos, somente, ao que eu sei, o Dia do Trabalho. Isso porque nem Natal e Ano Novo são unanimidades nesse mundo dicotômico em que vivemos… 

Pois bem, voltando à minha teoria da culpa, todas as justificativas para a criação dos dias comemorativos, ao contrário das referências oficiais, que dão conta de que seriam esses homenagens aos supostos integrantes delas, têm em conta uma data que marcou senão a luta pela liberdade, o dia em que houve eventual reconhecimento dos direitos daquelas pessoas que se dizem parte daquela liberdade ou daquele “grupo liberto”. 

Ora, a luta pela igualdade, salvo melhor juízo, e estou pronto para ser apedrejado em praça pública por isso, não parte de eu me reconhecer menor ou aceitar que se trata de uma parcela menos afortunada e que, se não for assim tratada, não haverá essa igualdade. A luta pela liberdade parte de reconhecermos que a todos deve ser dada a mesma possibilidade, que a todos devem ser dadas oportunidades em condições de igualdade, com mesmo acesso, mesma informação ou, pelo menos, mesma capacidade de busca e aperfeiçoamento. 

Hoje, não é possível aceitar que a mulher se utilizasse do CPF do marido, haja vista que reconhecida socialmente como se “dele fosse”. Ao mesmo tempo, não é possível aceitar que havia senhores de escravos. O holocausto não pode ser negado. Tudo isso é uma realidade, uma triste realidade… O grande ponto aqui é aceitarmos ou não que existe uma dívida social para com isso e, assim, a necessidade de criarmos um dia para “comemorarmos” essas libertações ou, a partir daqui, mediante esse aprendizado, mudarmos a nós mesmos em relação a isso e, com isso, mudarmos o mundo e, por consequência, a nossa visão de mundo… 

Não se trata de comemoração. A data, então, se fosse o caso, deveria ser a data para a lamentação de que, um dia, um ser humano foi tratado como inferior por outro ser humano inferior que, achando que era superior, tratou outro como tal. 

Sendo assim, eu quero o dia da “revolução das máscaras”. Tal qual a revolução das calcinhas, esse será o dia em que queimaremos as máscaras hoje obrigatórias para o convívio social e comemoraremos a libertação, andando nas ruas, novamente, de cara limpa. Essa data, aliás, acredito que será comemorada por todos! 

Até a próxima!

 

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