Para quem tem fé, amor, e carinho à sua volta, a vida nunca tem fim

Ao descobrir um tumor maligno na mama esquerda em 2016, quando amamentava a filha, Juliana Ferrari Boiaski foi do céu ao inferno em apenas um dia. Hoje, após um longo período de tratamento e recuperação, a tatuagem em sua mão traz a lembrança diária de uma luta que trouxe mais significado à sua vida

Foto: Eduarda Bucco

Em 2016, aos 35 anos, quando ainda estava amamentando sua filha de três anos, Juliana Ferrari Boiaski não se assustou ao encontrar um pequeno cisto na mama esquerda. Pesquisas indicam que, durante o período de aleitamento, as taxas de determinados hormônios que favorecem o desenvolvimento desse tipo de câncer caem na mulher. Além disso, não havia histórico recente de câncer de mama em sua família. Em consulta com uma obstetra, a suspeita era de que se tratava apenas de uma inflamação, mas o cisto acabou evoluindo rapidamente, o que levou Juliana a consultar um especialista de mama. E contrariando as probabilidades do seu caso, a biópsia constatou se tratar de um câncer triplo-negativo, em estágio avançado. Em cerca de um mês, o tumor maligno aumentou de 1,5cm para 4cm. “A primeira coisa que vem à cabeça é: ‘eu vou morrer’. A gente fica sem chão”, recorda Juliana.

No mesmo dia do diagnóstico, ao se dirigir à ala de oncologia do Hospital Tacchini, Juliana conta que seu quadro de saúde começou a ficar mais claro ao encontrar outros pacientes na mesma condição. “A primeira pergunta que fiz à oncologista foi se meu cabelo também cairia, porque isso é um baque muito grande para as mulheres”, comenta. O que Juliana ainda não entendia é que a perda do cabelo era apenas um dos grandes desafios que seriam enfrentados ao longo de cerca de um ano de tratamento. Foram 16 sessões de quimioterapia e 30 sessões de radioterapia, 12kg a menos, suplementos diários e diversas medicações, inclusive para depressão. “Foi cerca de um ano sem apetite, sem disposição e com diversas crises de depressão”, recorda Juliana.

Mas em setembro de 2016, após realizar a cirurgia de remoção do tumor e seu cabelo voltar a crescer novamente, a visão de Juliana sob o câncer começou a mudar de uma “sentença de morte” para uma “oportunidade de evolução como ser humano”. “Da mesma forma que veio muito rápido [o tumor], ele também regrediu muito rápido. Por mais debilitada que eu estivesse, meu organismo reagiu bem ao tratamento”, relata. E o segredo para um tratamento de sucesso, segundo ela, foi a vontade de viver, o amor pela filha, Lara Isabelly, e por toda família, além da fé e da rede de apoio e acolhimento formada em torno de si.

Foto: arquivo pessoal

Ela nunca esteve só

Ao ser diagnosticada com um tipo agressivo de câncer de mama, Juliana relembra dos sentimentos de medo e frustração por não entender os motivos por trás de sua atual condição de saúde. Passado o período de busca por respostas, a aceitação possibilitou uma nova fase de vivência do câncer. E junto a ela, a percepção de que Juliana não estava sozinha. Além de familiares e amigos queridos, a paciente se viu abraçada pela equipe da Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves e por toda a ala oncológica do Tacchini. Foram diversas consultas com fisioterapeutas, psicólogos e demais profissionais, além de cuidados especiais para possibilitar o conforto de Juliana. “Eu fui a primeira paciente que a Liga auxiliou na colocação de um clipe na mama, para que na hora da cirurgia o médico soubesse exatamente onde estava o tumor. É uma forma de tornar o procedimento menos invasivo” revela. “Agradeço muito à Maria Lucia, presidente da Liga, e a todos os médicos e toda equipe da Oncologia”, declara Juliana.

Outro companheiro infalível na jornada contra o câncer foi Deus. Devota de Nossa Senhora de Caravaggio, da qual a data de celebração é a mesma do aniversário de sua filha, em maio, Juliana fez uma promessa para auxiliar na sua cura. A frase “para quem tem fé, a vida nunca tem fim” foi gravada em sua mão direita, uma forma de relembrar todos os dias da batalha que trouxe mais significado à sua vida. “A gente aprende a dar valor às pequenas coisas, a reclamar menos e a aproveitar o momento presente”, revela.

Hoje, aos 40 anos, Juliana aconselha que toda mulher passe a se perceber mais e ficar atenta a qualquer sinal diferente que possa aparecer. “Se eu não estivesse amamentando, talvez não tivesse descoberto a tempo”, reflete. O cuidado com o corpo, o autoexame e a insistência do diagnóstico preciso são algumas das dicas de Juliana. “Na minha primeira consulta, me falaram que se tratava de uma inflamação. Mas eu desconfiei e fui atrás de uma segunda opinião”, exemplifica. E, por fim, deixa uma mensagem de esperança a todas as mulheres que estão enfrentando ou poderão vir a enfrentar a doença: “o câncer não é uma sentença de morte. A gente não pode desistir ao receber o diagnóstico. Eu lutei com todas as minhas forças porque eu sabia que tinha uma filha pequena que dependia de mim. Que tinham pessoas torcendo pela minha recuperação. Hoje me sinto uma pessoa totalmente diferente e levo a experiência como um aprendizado que Ele me proporcionou”, finaliza.

Foto: Eduarda Bucco
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