Por que o maltrato aos animais nos comove tanto?

Era um final de tarde normal no ano de 2011. Aguardava o médico me chamar para a consulta: nada grave, apenas rotina. Diante da impaciência normal dos que esperam, percebi uma revista nova sobre a mesa de centro. Coisa rara, eu sei. Com velocidade, avancei sobre o precioso item. Dentro desta revista uma matéria que impediu aquele dia de passar batido pela minha memória. Dizia: “Rinoceronte negro é oficialmente extinto”.

Você é capaz de sentir a profundidade de tal frase? Vamos tentar de novo: você nunca mais verá o rinoceronte negro. O adeus eterno de uma espécie. E agora, sentiu? Declarar o fim de uma espécie pode ser algo chocante, principalmente quando isso ocorre por causa de outra espécie, a nossa. 

Pode ser surpreendente para muitos, mas 90% dos espécimes que já existiram na Terra foram extintos. É uma cadeia natural da evolução que a humanidade não influenciou. Talvez por isso o caso do rinoceronte negro choque – ou deveria nos chocar, afinal não vejo com normalidade a dizimação de uma espécie por conta do valor de seu chifre.

Nesta semana, enquanto lia no portal SERRANOSSA sobre os cães que foram torturados e mortos em Bento Gonçalves, fiquei me questionando novamente sobre a simbologia deste convívio entre animais e humanos, sobre toda a culpa que nos recai diante da nossa aparente potência quanto ao domínio da natureza. Somos a única espécie com o poder de subjugar e aniquilar outras. Talvez essa condição nos torne tão prepotentes e surpresos quando um tsunami decide nos varrer ou um terremoto mata centenas de milhares “dos nossos”.

Do ponto de vista evolutivo, somos simplesmente aqueles que desenvolveram um mecanismo mais complexo de pensamento, movido por teoria e comprovação, regido pela capacidade de passarmos adiante, ensinarmos os próximos de nós de modo que não precisem recomeçar. Assim nasceu nossa vantagem, assim sobrevivemos sem sermos dizimados por aqueles muitos que hoje tentamos proteger, incluindo o rinoceronte negro.

Eis para mim uma das mais importantes chaves desse experimento humano na Terra: o poder. O que ocorreria quando nos fosse dado, quando fôssemos cientes de nossas escolhas, desejos e consequências? Como seríamos quando estivéssemos no topo dessa cadeia alimentar que por milhares de anos decidiu que espécies seguiriam e quais deixariam de existir?

O assunto “preservação” é mais delicado do que parece. Sabe aquelas pessoas que têm horror de quem joga lixo na rua? Sempre me questiono se tal indignação não é referência do próprio egoísmo, se essa pessoa não estaria simplesmente buscando o melhor ambiente para ela própria. Assim como no caso de um animal extinto e o pensamento típico de: “agora não poderei mais mostrar esse bicho ao meu filho”. Nós, humanos, parecemos fadados a esse egoísmo e o que muda é somente a forma como camuflamos nossa individualidade. Atualmente usamos essa desculpa da preservação do planeta. Fala sério né, salvar o planeta? Não salvamos nem nossas crianças da fome.

Toda essa praticidade midiática vem finalmente a apresentar os homens ao homem. Hoje, enquanto estamos no consultório esperando o médico nos chamar, não precisamos mais de revistas para nos atualizarmos: bastam alguns toques na tela do celular e surgem as banalidades do dia. 

E assim fingimos estar acostumados, até vermos algo triste sobre os animais. E sabe por que essas notícias doem mais? Poder. É nessa hora – em que deveríamos ser superiores e proteger – que vemos a verdadeira face da nossa espécie.

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