Reajuste no valor dos aluguéis vem comprometendo renda de famílias em Bento

Não bastassem os recorrentes aumentos no preço do gás, na tarifa de luz e no custo dos alimentos, além das perdas financeiras geradas pela pandemia, as famílias e empresários têm assumido outros importantes gastos: os reajustes nos aluguéis. Até julho, o Índice Geral de Preços e Mercado (IGP-M) acumulou alta de 33,83% em 12 meses. Já o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mesmo registrando a maior alta em 19 anos, chegou a 8,99% em 12 meses. Entidades, comércio e a própria comunidade têm defendido a substituição do IGP-M pelo IPCA como indexador para a negociação dos aluguéis. Nesta semana, inclusive, um grupo de 25 sindicatos empresariais, incluindo o Sindilojas de Bento Gonçalves, entrou com uma ação coletiva no Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir esta substituição.

A briga pelo fim do índice como referência é antiga no mercado, tanto para imóveis comerciais como residenciais, mas a pandemia agravou a situação. No caso dos moradores, muitas famílias tiveram a renda reduzida. Já para as empresas, manter o negócio em meio à crise é ainda mais desafiador com o reajuste robusto do aluguel, que é uma das principais despesas.


 

No entanto, nem todos os proprietários estão dispostos a negociar. A administradora Lizandra Lessa, de 41 anos, conta que desde julho paga R$ 500 a mais no aluguel onde mora. “Primeiro eles aplicaram 34% de reajuste. Dai fui negociar e baixaram para 20%. Ainda assim é um valor muito alto, porque a nossa renda segue a mesma e as contas só aumentam”, comenta. 

Uma fisioterapeuta, que prefere não se identificar, também revela dificuldade na negociação. “Tivemos muita resistência por parte do proprietário em negociar. Tivemos, primeiramente, um aumento de R$ 700 no valor o que ficaria completamente inviável para nossa família. Só conseguimos baixar um pouco porque falamos que iríamos sair do apartamento, mas ainda assim ficou um valor alto. Estamos procurando algo mais em conta”, comenta ela, que agora teve um reajuste de R$ 350. Casada e mãe de uma filha, a bento-gonçalvense reclama do aumento. “Pra quem não tem reajuste salarial há séculos é um impacto muito grande. É o valor do supermercado que faço a cada 15 dias, são três meses de luz, é o valor do condomínio!”, desabafa.

Já uma empresária, com empreendimento no bairro São Roque e que também prefere não se identificar, colocou seu ponto comercial à venda por conta do reajuste. “O que parece é que alguns estão tentando se aproveitar deste índice para fazer outros negócios com o imóvel. Comigo não teve negociação”, comentou.

Já a corretora e coordenadora do setor de aluguéis de uma imobiliária local, Cati Cazer, afirma que desde o início da pandemia os locatários estão sendo acessíveis nas negociações de renovação de contrato. “Apenas dois dos meus clientes foram reajustados nas renovações e nada de 28 ou 30%. A diferença foi em torno de R$ 20 e R$ 50. Tive renegociação de valor, inclusive para menos, por um período determinado, dentro do contrato, e também distratos sem aplicação de multa”, comenta. 

O presidente do Sindilojas Bento, Daniel Amadio, comenta que a maioria dos lojistas locais está conseguindo negociar os valores dos aluguéis, alguns trocando pelo indicador da inflação e outros pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC). “Mas também observamos que alguns estão irredutíveis, seja por conta da especulação imobiliária ou ainda por puro aproveitamento da situação, porque estamos falando de um reajuste de mais de 30%. Cabe ao lojista ver se tem fôlego financeiro para aceitar, o que pós-pandemia é muito difícil, ou entregar o imóvel e buscar outra base de trabalho”, afirma ele, que vem trabalhando ao lado de outras entidades no âmbito nacional para tentar que a substituição IGP-M pelo IPCA como indexador para a negociação dos aluguéis seja obrigatória. 

 

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