Trevo do Santa Rita: uma década de conversas e promessas vazias

Em setembro, a prefeitura de Bento Gonçalves iniciou uma obra de alargamento da rua Antônio Michelon, no acesso à BR-470 pelo trevo do Santa Rita. Mesmo “visando proporcionar mais segurança” aos cerca de 30 mil veículos que trafegam por dia no trecho, obra é vista como ineficiente por quem utiliza o trevo diariamente

Foto: Eduarda Bucco

Há anos, o SERRANOSSA vem realizando uma série de reportagens com empresários e moradores sobre a caótica situação do chamado “trevo do Santa Rita”. Diariamente, cerca de 30 mil veículos trafegam pelo trecho na BR-470 – de acordo com dados do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) –, que de um lado liga a rodovia ao centro da cidade e, do outro, a cerca de dez empresas com centenas de funcionários. Em setembro deste ano, a prefeitura de Bento Gonçalves deu início a uma obra que contemplará o alargamento dos dois lados da via após a rua Antônio Michelon: para quem transita no sentido da BR-470 para o Santa Rita e para quem sai do bairro. “Ao acessar e sair do bairro, o veículo terá essa via paralela, liberando o fluxo de veículos da BR- 470 e proporcionando mais segurança”, explica a diretora do IPURB, Melissa Bertoletti Gauer. O valor do investimento é de R$ 475 mil e o IPURB afirma que está sendo elaborado um projeto para o trecho e “sendo avaliadas as necessidades do local”, afirma Melissa.

Entretanto, em nova conversa com empresários da região, a obra tem sido apontada como ineficiente. Consuelo Beccega Tres, proprietária da Casa do Vidro, relata que ela juntamente com outros empresários da localidade vêm pleiteando mudanças no trevo há cerca de 10 anos. Além do risco evidente de acidentes, os motoristas que utilizam o trecho de forma recorrente precisam enfrentar longas filas de congestionamento. “Na época do [Guilherme] Pasin [ex-prefeito de Bento], fizemos um levantamento topográfico e entregamos na prefeitura, a fim de que iniciassem os estudos, recorda. Desde então, os empresários têm sugerido readequações no trecho. No ano passado, foi feito um abaixo-assinado para ser entregue a autoridades políticas. Uma das sugestões é a construção de uma rótula simples no meio da rodovia. “Pelo menos assim conseguimos chegar vivos ao outro lado”, declara.

Imagem captada nas câmeras de segurança da empresa Casa do Vidro. Crédito: arquivo pessoal

Em outubro do ano passado, ao ser questionado sobre soluções para o trevo, o DNIT informou ao SERRANOSSA que o projeto de melhorias no local deverá integrar o escopo da contratação da proposta de duplicação da BR-470. Neste ano, o órgão informou que “está elaborando o Termo de Referência para contratação dos projetos básico e executivo para as melhorias propostas para este segmento”. Já em relação ao trevo em específico, o DNIT informou que a prefeitura de Bento Gonçalves propôs ao departamento a execução de melhorias com a implantação de faixas de desaceleração e aceleração no local, “sendo que, após análise, foi autorizada a realização das melhorias”. De acordo com o IPURB, está sendo elaborado um estudo entre o município e o DNIT para outras futuras melhorias. “Tem alguns quesitos técnicos que precisam ser observados, como, por exemplo, os paredões existentes e a curva antes de chegar ao trevo”, argumenta a diretora do IPURB, Melissa Bertoletti Gauer.

Na visão dos empresários, a simples construção de rotatórias facilitaria a transposição da via, diminuiria a velocidade e daria fluidez ao trânsito. “No mundo inteiro este recurso é usado e a preferência de manobra é sempre de quem está dentro da rotatória”, ressalta Consuelo. Outra sugestão proposta pelos empresários da região seria a obrigatoriedade dos motoristas que descem a Antônio Michelon em seguir na rodovia no sentido à Pipa Pórtico, para então fazer o retorno em frente à delegacia da PRF. Isso porque, um dos principais problemas apontados no local diz respeito à enorme fila de veículos – principalmente caminhões de grande porte – que descem pela Antônio Michelon, sentido BR-470. Devido ao grande movimento da rodovia, os veículos acabam esperando por muito tempo para conseguir cruzar. Outros transitam no sentido Garibaldi/Bento e entram no trevo para fazer o contorno e cruzar para o outro lado. “Não flui e acaba trancando todo o trânsito. E isso não é um problema apenas deste trecho, mas sim de todos os acessos ao município. Nossa preocupação faz sentido pela situação das obras do túnel do São João. Não é admissível que demore tanto tempo”, desabafa a empresária. “Falta interesse do município em investir em infraestrutura. Um exemplo é essa obra que iniciaram, trabalharam cerca de duas semanas e agora faz quatro que não avança”, complementa Consuelo em relação ao alargamento da pista iniciado pela prefeitura de Bento. Sobre essa obra, a prefeitura informa que os trabalhos precisaram ser paralisados devido a uma rocha que deverá ser detonada. “O processo de licitação já está em edital para que se possa dar sequência à obra. Incluímos [no edital] tanto o serviço de detonação de rocha, quanto de pavimentação, sinalização e remoção de postes”, informa a diretora do IPURB.

Sugestão de rótula proposta pelos empresários. Crédito: arquivo pessoal

Atualmente, para driblar o grande congestionamento em horários de pico e garantir a segurança pessoal, os empresários sugerem o deslocamento por cerca de 3km, no sentido Bento/Garibaldi, para fazer o retorno no km 221, em frente ao Posto Sim. Na opinião da empresária Consuelo, “não há problema em ter que fazer uma quilometragem maior para acessar a cidade, já que assim temos mais chance de chegarmos vivos do outro lado da estrada. Esta medida deveria ser obrigatória a todos os motoristas, por isso a urgência em remodelar os acessos à cidade”, complementa.

Consuelo ainda ressalta que, na saída do Vale dos Vinhedos, forma-se uma grande fila para acessar a rodovia, assim como para quem faz o retorno em frente à empresa SCA. “As rotatórias também trariam maior segurança aos pedestres que necessitam atravessar a rodovia. É um atentado ter que transpor três pistas para chegar ao outro lado”, continua.

Consuelo reforça que, apesar dos empresários estarem tomando a frente das reinvindicações para o trecho, melhorias no trevo são de interesse de toda a sociedade. Além de grande parte dos moradores utilizarem o acesso para entrar e sair do município, o trevo ainda é usado por diversos caminhões das principais empresas da cidade para acessar a BR-470. “Ao longo dos anos vimos várias equipes de fora fazerem medições e estudos sobre o trevo. Mas essas pessoas vão embora e nunca mais vem ver o que acontece aqui, não sabem a verdadeira dificuldade de quem transita diariamente pelo trecho. E aos finais de semana o fluxo de veículos é constante, com filas de carros de turistas”, comenta a empresária. “Faz mais de uma década que estamos reivindicando mudanças e somente agora a prefeitura está fazendo uma obra, que ninguém esclarece ao certo como será”, desabafa. “Também estamos apreensivos com os anúncios de grandes empreendimentos na área do turismo e, consequentemente, mais movimento. Ainda, nos assusta a lentidão no tratamento de modernizar a estrutura viária. Só para lembrar: a rodovia 470 está construída há mais de 50 anos”, ressalta.

Foto: arquivo pessoal

Caminhões são o grande problema

Ao longo dos últimos anos, o fluxo de veículos no trevo do Santa Rita tem tido um aumento considerável, e a explicação está na ampliação de grandes empresas do município. Ao serem construídos os moinhos da M. Dias Branco, por exemplo, o projeto inicial contemplava a adequação de uma entrada e saída alternativa pela rua José Giordani – que segue até a empresa Todeschini e que deveria ser ligada à rodovia na altura da empresa SCA, no entroncamento com o Vale dos Vinhedos. “Essa rota seria importantíssima para o trânsito de grandes veículos de carga de empresas como M. Dias Branco e Todeschini, por exemplo, e tantos outros”, comenta a empresária Consuelo Beccega Tres. Entretanto, até o momento, o fluxo desses veículos pesados continua sendo feito pelas principais entradas e ruas do perímetro urbano do município.

“Na Pipa, além de todo o movimento que vem ali do São João [por conta da obra do túnel], tem as carretas que chegam carregados de trigo ou MDF, por exemplo. Eles não conseguem subir a curva fechada e acentuada para entrar na cidade, porque o caminhão acaba trancando. Então precisam contornar a rótula. Mas um caminhão grande, quando contorna a rótula e espera novamente para cruzar a rodovia e acessar a entrada da Pipa Pórtico, acaba formando uma fila quilométrica”, explica Consuelo. “É um esforço desnecessário aos motoristas que não estaria acontecendo se tivessem cumprido a promessa de infraestrutura no lançamento destas grandes obras” analisa a empresária.

O acesso desses caminhões não é feito pelo trevo do Santa Rita porque, por conta do peso da carga, os veículos não conseguem subir a rua Antônio Michelon. Entretanto, a saída da cidade normalmente é feita pelo Santa Rita. “Sabemos que estão ajeitando uma ruazinha no bairro para as carretas descerem, mas de qualquer forma irão desembocar no trevo. E quem entrar no município e subir a Antônio Michelon vai encontrar a fila de carretas atravessando a via estreita para chegar na rodovia. Será ainda pior”, opina.

Conforme a M. Dias Branco, já estão sendo realizados investimentos na região para que os caminhões possam entrar e sair da cidade de forma planejada, “inclusive na construção de estacionamento em Bento e Garibaldi”. A iniciativa, entretanto, não resolve o problema dos veículos de grande porte que transitam no perímetro urbano, opinam os empresários. “A Companhia está à disposição para, em conjunto com as demais empresas e os agentes públicos, discutir projetos para melhoria do trânsito, considerando os impactos atuais e futuros para o crescimento contínuo de Bento Gonçalves”, afirma a empresa.

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