Vitória de Rebeca traz esperança, mas evidencia necessidade de maior incentivo à Ginástica Artística

A conquista da atleta paulista Rebeca Andrade, de apenas 22 anos, nos Jogos Olímpicos de Tóquio continua repercutindo em todo o país. Ela se tornou a primeira brasileira a vencer duas provas na mesma edição das Olimpíadas, conquistando medalha de prata no individual geral e medalha de ouro no salto da Ginástica Artística. Mas a vitória não é celebrada apenas pelo título que Rebeca trouxe ao Brasil, como também pela influência positiva que tem se tornado para milhares de jovens atletas. “Rebeca, como a maioria das ginastas, começou muito cedo na ginástica. Com apenas nove anos já morava longe da mãe, em outra cidade, tudo para realizar o sonho que tinha de se tornar campeã olímpica”, comenta a professora de Educação Física e de Ginástica Artística de Bento Gonçalves Mônica Ferreira. 

Praticando ginástica desde criança, Mônica é hoje a principal difusora do esporte no município, que ainda segue em tímidos passos. Filha de professores de Educação Física, a professora conta que a ginástica sempre foi sua paixão e vê a conquista de Rebeca como um incentivo a mais para o esporte. Em 2011 e 2012, Rebeca esteve em Bento Gonçalves para participar do Campeonato Brasileiro, treinando com ginastas do município. “Mesmo naquela época ela já se destacava das demais, assim como Flávia Saraiva e muitas outras que, infelizmente, desistiram antes de concretizarem seus sonhos”, comenta Mônica. 


Mônica Ferreira durante o Torneio Nacional em 2019, acompanhada da atleta juvenil Maria Eduarda Bedin Débora. Foto: Ricardo Bufolin

Dessa forma, a atleta tem se tornado um exemplo de como, com dedicação e perseverança, é possível chegar ao lugar que sempre se sonhou. “É a conquista de uma medalha Olímpica que representa toda uma comunidade Ginástica de atletas, treinadores, gestores e comissões técnicas que, muitas vezes, abdicam de sua vida para lutar pelo crescimento da modalidade”, analisa. “Rebeca é a concretização de um sonho de toda uma nação. Sua vitória reacendeu um patriotismo que há tempos não se via em nosso país. Todos torcendo juntos por um Brasil onde os sonhos possam acontecer, onde meninas possam ser o que elas quiserem e onde classes menos privilegiadas tenham a sua vez”, continua a professora. 

Mas apesar de Rebeca ter recebido aplausos de autoridades, artistas e de toda a comunidade no geral, sua conquista suada evidencia as dificuldades e a pouca atenção voltada à prática por parte da sociedade e do Poder Público, principalmente em municípios do interior. 

Lutando pela ginástica

Mônica Ferreira se apaixonou pela Ginástica Artística com oito anos e, desde então, tem se dedicado à prática e à valorização do esporte em Bento. Por meio da fundação e coordenação da Associação Atlética e Cultural Bento-Gonçalvense (AACB), entidade sem fins lucrativos que atende, atualmente, mais de 150 crianças e adolescentes entre três e 18 anos, Mônica busca contribuir com a democratização do acesso ao esporte. Apesar disso, enfrenta dificuldades para ampliar a prática no município. “A Ginástica Artística é um esporte muito difícil de ser trabalhado, devido ao alto nível técnico exigido dos professores, que devem ser formados em Educação Física e terem curso técnico específico na área e também tem altos custos na aquisição de equipamentos”, comenta. “Hoje em dia um simples colchão de chegada do salto chega a custar R$ 4.000,00”, exemplifica a professora.


Foto: Eduarda Bucco
 

Por conta do alto custo do esporte, Mônica ressalta que se torna difícil introduzir novos núcleos, por menores que sejam. Hoje, a Ginástica Artística em Bento se resume à AACB e à oficina oferecida por um colégio particular. 

A professora ainda destaca a falta de interesse por parte da comunidade em geral. “A cidade de Bento Gonçalves é carente de diversidade no esporte e atividade física, e não é culpa somente do Poder Público. Muitas vezes modalidades são oferecidas, mas não vingam. Como é o caso do basquete, que recentemente abriu uma escolinha em parceria com a UCS, mas me relataram que não há muita procura pelas aulas”, lamenta. 

Na opinião de Mônica, além das autoridades, os professores de Educação Física nas escolas têm um papel fundamental no incentivo às diferentes modalidades esportivas. “O primeiro contato com o esporte é na escola. É nas aulas de Educação Física que nasce o amor ao esporte, a prática de atividade física e a vida saudável. É um trabalho de formiguinha”, comenta. 


Foto: Eduarda Bucco
 

Foi na escola que a ex-atleta Kamila Tansini, de 23 anos, se apaixonou pela Ginástica Artística. Ela começou a praticar com seis anos numa oficina oferecida pela escola onde estudava e, depois, passou a frequentar a AACB. “Eu gostava de tudo em relação ao esporte, principalmente das nossas evoluções em cada treino. Porque o que define a Ginástica é a disciplina. E na AACB nós nos comprometíamos muito com os treinos. A Mônica sempre trouxe esse olhar de dedicação e valorização do esporte”, recorda. 

Kamila seguiu praticando e competindo dos seis aos 15 anos, com treinos que iam de três a cinco vezes por semana, em época de campeonato. Entretanto, devido há alguns problemas de saúde e a necessidade de, em alguns anos, ingressar na faculdade, Kamila decidiu parar com o esporte. A visão de uma carreira na Ginástica parecia fora de sua realidade. “Quando eu era pequena pensava em continuar, ir para competições maiores. Mas eu acho que, para equipes da nossa cidade chegarem num nível como o da Rebeca, é preciso muito mais incentivo do município. São necessários novos aparelhos e uma estrutura maior, para ampliar a capacidade de atendimento”, acredita. 


Foto: arquivo pessoal
 

A ex-atleta esteve pertinho de Rebeca Andrade e de outros ginastas como Arthur Zanetti e Flávia Saraiva quando eles estiveram competindo em Bento Gonçalves. E mesmo não participando mais do esporte atualmente, Kamila acredita que a história desses atletas e a representatividade que eles trazem na Ginástica podem ser grandes motivadores para o surgimento de novas estrelas. “Saber que essas meninas tiveram um caminho árduo, que iniciaram pequenas, venceram desafios e persistiram, é um incentivo muito grande para as crianças e adolescentes continuarem motivados e seguirem com a prática”, comenta Kamila. 

Mesmo com os desafios do esporte em municípios do interior, a professora Mônica destaca a evolução de alunas como Mariane Scheeren, de 22 anos. Praticando desde os nove, hoje ela assume o título de atual campeã do Torneio Nacional, realizado pela última vez em 2019, por conta da pandemia. Além disso, decidiu fazer da prática esportiva sua profissão, ingressando no curso de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A Ginástica é um esporte incrível. Traz muitos benefícios à saúde, além de ser lindo. E para mim ela representa muita coisa. Foi por meio dessa prática que decidi o meu futuro”, comenta Mariane. “Tenho certeza que com as Olimpíadas muita gente já mudou o olhar em relação ao esporte, principalmente sobre a Ginástica Brasileira”, analisa. 


Atleta Mariane Scheeren. Foto: arquivo pessoal
 

Incentivo a diferentes modalidades 

Além de professora de Ginástica Artística e de Educação Física, Mônica é membro da Diretoria do Conselho Municipal de Esportes. Por meio dele, a classe esportiva em Bento está buscando apoio da gestão municipal para criação de um Fundo próprio do Conselho, o qual daria mais liberdade ao grupo para decidir onde investir as verbas destinadas ao esporte. “O Conselho publicou neste ano de 2021 um Edital em parceria com a Sedes [Secretaria de Esportes e Desenvolvimento Social] e a prefeitura que vai atender mais de 20 entidades do nosso município, com um total de R$ 400.000,00. Também está para lançar o Edital do Bolsa Atleta que contemplará futuros e atuais campeões nas mais diversas modalidades esportivas”, cita.

Outra ação que deverá ser concretizada pelo Conselho neste ano é o mapeamento das modalidades existentes atualmente em Bento, com informações sobre onde são praticadas e qual o público atendido. O objetivo, conforme Mônica, é traçar metas para aumentar a diversidade de modalidades oferecidas e seus locais de prática. “Também está em nossos planos a abertura de dois núcleos de Ginástica Artística, um na Praça CEU [no bairro Ouro Verde] e outro no bairro Humaitá”, adianta a professora. 

Para finalizar, Mônica ressalta a importância da prática esportiva desde a infância: “Não somente a Ginástica, como todos os outros esportes agregam valores inestimáveis na vida de nossas crianças e adolescentes. Ensinam sobre disciplina, foco, sobre como saber lidar com sentimentos, com frustrações. Ensinam a valorizar as pequenas conquistas, aprender a cooperar, a olhar o outro.  O esporte dá esperança de um Brasil melhor”, finaliza.


Fotos: Eduarda Bucco
 

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